Arie Halpern: o que fazer quando o Google diz “I want you”?

 

Arie Halpern: o que fazer quando o Google diz “I want you”?

O Google surpreendeu recentemente com o anúncio de mais um megaempreendimento. “Nós mapeamos o mundo. Agora vamos mapear a saúde da população” diz o site do Projeto Baseline. Conduzido pela Verily, empresa de engenharia e pesquisa cujo objetivo é criar ferramentas e plataformas para capturar e tratar dados sobre a saúde “em maior profundidade e abrangência”, esse é, na verdade, mais um megaempreendimento do Google.

Não houvesse o Google de fato realizado a proeza de mapear o mundo — não apenas no sentido geográfico — e poderíamos duvidar da exequibilidade do projeto. Portanto, a coisa é pra valer. O site acrescenta: “Tudo começa com você”. Pois bem, você está disposto a compartilhar os dados da sua saúde para compor o Big Data do Google?

O comunicado do site traz-me à memória o mote usado pelos Estados Unidos para recrutar combatentes para a guerra. Um clássico da comunicação. “I want you” diz o Tio Sam do cartaz e o seu dedo, desenhado em perspectiva, parece espetar o espectador não importa em que ângulo esteja. A peça gráfica (na verdade copiada de um cartaz inglês) funcionou tão bem que foi usada tanto na Primeira como na Segunda Guerra Mundial. O segredo para o sucesso da mobilização está em envolver o público em uma causa. E a causa apresentada pelo Google, no Baseline, é meritória. O objetivo é colocar a tecnologia de informação para levantar, como nunca foi possível antes, informações sobre saúde que poderão ser usadas para prevenir e combater doenças. A Stanford Medicine e a Duke University School of Medecine participam do projeto.

Para levar adiante o levantamento, o Google está recrutando 10.000 pessoas dispostas a participar da pesquisa. Quem aceita o convite embarca em uma jornada que deve se estender pelos próximos quatro anos e vai exigir dedicação e desprendimento. Além de fé – para acreditar que se fará bom uso de uma quantidade enorme de dados

que irão desnudá-lo. Os participantes concordam, por exemplo, em ser entrevistados pessoalmente e permitir a coleta de informações sobre sua saúde mental, sua conformação genética e “tudo o que há entre uma coisa e outra”. Perto disso, ceder o número do cartão de crédito, informar a sua geolocalização e os sites que você visita parece tão inofensivo como participar do bingo da igreja.

O participante deve ir, uma vez por ano, a um dos sites físicos do projeto para submeter-se a exames e testes, fornecer amostras de sangue, saliva e tudo o mais, e responder questionários. Quatro vezes por ano, ele receberá pesquisadores para entrevistas de cerca de duas horas. E se compromete ainda a participar de um encontro especial, a ser realizado logo após algum evento muito relevante em sua vida. O grande irmão quer saber como a sua saúde é afetada nessas ocasiões – e estamos já no plano das emoções, para além do físico.

O levantamento conta com a ajuda de uma parafernália tecnológica. O participante ganha um relógio de pulso que ira registrar dados como pressão, batimentos cardíacos e nível de atividade. E também um sensor para ser colocado debaixo do travesseiro e coletar informações enquanto ele dorme. Uma vez por semana, para completar, ele deverá responder a um questionário sobre como passou os dias e como andou o seu humor.

A privacidade dos participantes será preservada inteiramente, assegura o Google.  Não poderia dizer diferente. Os dados serão protegidos por sistemas criptográficos e armazenados em um banco de dados seguro. Não há como não imaginar que esse banco de dados se tornará imediatamente o objeto de desejo de todos os serviços de informação e hackers do planeta, a começar pela National Security Agency, dos Estados Unidos. Por fim, há um sistema de salvaguardas para evitar que os dados sobre sua saúde sejam associados à sua identidade – sem a sua permissão. Como lembra a revista Wired, essa é uma promessa difícil de cumprir até porque o participante certamente já está na base de dados do Google.

Ainda que não houvesse motivos para duvidar da boa fé dos idealizadores do projeto, é inquietante imaginar-se o poder que um banco de dados desse porte confere a quem o controlar. E as consequências que esse domínio da informação terá sobre a nossa sociedade. E então, a pergunta que fica é : “Quem poderá nos defender?” Poderíamos invocar o Estado, mas há o risco de que o Estado, dependendo de quem o maneja, seja parte interessada. Se não poderemos contar com Chapolin, o divertido herói da série de tevê, é preciso que a sociedade aperfeiçoe seus mecanismos de proteção contra os riscos que a tecnologia da informação e suas megacorporações representam.


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