A disrupção e a lógica do mercado financeiro

O tão esperado lançamento de ações do Uber na Nyse frustrou as expectativas. Um dos mais emblemáticos negócios da economia compartilhada teve um dos piores desempenhos entre os IPOs acima de US$ 1 bilhão, de acordo com a Dealogic. As ações caíram quase 8% e a capitalização de mercado ficou bem abaixo dos U$S 100 bilhões previstos.

A Lyft, primeira empresa de transporte compartilhado a abrir capital, teve estreia frustrante como sua rival. As ações, lançadas em março, estão sendo negociadas 20% abaixo do preço da oferta inicial. Alguns analistas ponderaram que o fraco desempenho no IPO não significa fracasso. O Facebook, por exemplo, registrou queda no preço das ações quando estreou na Bolsa em 2012.

O presidente do Uber, Dara Khosrowshahi, declarou ao Financial Times que “o resultado de um dia não é medida de sucesso ou fracasso”. E, como outros especialistas, lembrou que o IPO aconteceu na semana em que os EUA elevaram as tarifas sobre produtos chineses, intensificando a guerra comercial entre os dois países.

Porém, um mês antes, uma companhia criada também em São Francisco teve suas ações valorizadas em 30% em seu primeiro pregão. Criada há 166 anos, quando o Vale do Silício não existia nem em sonhos, a Levi Strauss & Co. reestreou em alto estilo (a empresa teve ações negociadas em bolsa na década de 70, mas fechou capital em 1985).

De duas para 40 calças por hora

Após décadas de queda nas vendas e da acirrada concorrência das marcas de fast-fashion, a centenária marca de jeans volta a ganhar protagonismo investindo em tecnologia. No Eureka Lab, hub de inovação criado há cinco anos, são testadas as novas ideias. Uma plataforma, chamada FLX, combina imagens digitalizadas – muitas vezes, de modelos de jeans de décadas passadas com novos elementos de design – e costura a laser para criar novos protótipos num iPad, que são depois produzidos.

A automação do processo possibilita testar uma quantidade maior de modelos e abre caminho para customizar cada vez mais as peças. Com os investimentos em tecnologia, a Levi’s reduziu significativamente os processos manuais e o uso de químicos. O uso do laser reduziu para 90 segundos o tempo de produção de um jeans que antes levava de 20 a 30 minutos.

Entre as inovações recentes estão o tecido que estica em quatro direções (four-way stretch) e a jaqueta de tecido condutor sensível ao toque, desenvolvida em parceria com o Google. Batizada Levi’s Commuter Trucker Jacket, ela permite comandar as funções do smartphone por meio do toque em pontos do tecido, como um relógio inteligente.

“Não podemos esquecer que o IPO do Uber foi a décima maior abertura de capital nos EUA em termos de capital arrecadado e seu valor de mercado é dez vezes maior do que o da Levi’s, mas a disrupção ainda não causou mudanças na lógica do mercado financeiro”, diz Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.

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