A tecnologia no processo de alfabetização digital

Um aplicativo para alfabetização desenvolvido por alunas da Universidade de São Paulo – USP ganhou o primeiro lugar na Devex World 2020. O hackathon, ou maratona de programação de software, reuniu estudantes de mais de 40 universidades de todo o mundo. Realizado pela Arizona State University, dos EUA, e pela Devex, uma plataforma voltada para o desenvolvimento social, a competição tem como objetivo desenvolver soluções sustentáveis para desafios globais. 

Um projeto de quatro alunas do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, foi desenvolvido para pessoas que conseguem escrever o nome e ler frases curtas, mas são incapazes de ler livros, os chamados analfabetos funcionais. O usuário pode escolher os temas de acordo com seu interesse e aprende por meio de vídeos e dicas.

No processo de criação, um dos primeiros questionamentos com que se depararam as alunas foi sobre a capacidade dos analfabetos funcionais em utilizar aplicativos no celular. Eles representam cerca de 30% da população brasileira entre 15 e 64 anos, e, de acordo com o Instituto Paulo Montenegro (Inaf), são usuários frequentes das redes sociais. Entre eles, 86% usam WhatsApp, especialmente por mensagens de áudio, 72%, Facebook e 31%, Instagram. Ou seja, são alfabetizados digitalmente.

Alfabetização x letramento

Para as gerações nascidas a partir de meados da década de 1990, a alfabetização digital começa na infância. Os chamados nativos digitais nasceram na era da tecnologia e dominam naturalmente os recursos básicos. Da mesma forma, nessas última duas décadas a tecnologia se tornou inerente aos processos de aprendizagem.

Dispositivos digitais e recursos como aplicativos de contação de histórias, jogos que estimulam o raciocínio, pesquisas nas ferramentas de busca e, mais recentemente, ferramentas para realização de reuniões ou aulas online estão presentes desde a educação infantil.

O Centro de Inovação para Educação Brasileira – CIEB fez um levantamento de diversas plataformas, ferramentas, livros interativos e redes sociais, entre outros Recursos Educacionais Digitais (RED). E grandes empresas de tecnologia, como Microsoft e Apple, entre outras, possuem diversos recursos digitais para a educação.

Porém, há outra questão muito relevante que é a diferença entre a alfabetização digital e o letramento digital. “A diferença está entre saber acessar a internet e usar os recursos mais simples, da rede, dos apps ou dos dispositivos, e conseguir de fato interagir nos ambientes digitais, dominar as ferramentas e distinguir fontes confiáveis”, explica o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern.

Colocando de forma simples, o alfabetizado no mundo digital o acessa mais como forma de entretenimento e para tarefas básicas. O letrado vai além, aprende, expressa sua opinião, usa as informações de forma crítica e realiza compromissos pessoais ou de trabalho.

“É justamente nessa diferença, na redução da desigualdade entre alfabetizados e letrados que o aplicativo premiado na competição internacional vai fazer a diferença”, conclui Halpern.