“Abaixo a Lei de Murphy” é o título de artigo de Arie Halpern publicado pelo “Diário do Grande ABC”

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Estou há mais de dois anos na Suíça, onde as coisas funcionam com a previsibilidade tediosa de relógio. O trem previsto para as 15h03 chegará às 15h03. Não há surpresas. Tudo que é previsível é previsto. Até a chuva é anunciada com precisão. Por força de inclinação pessoal e dos negócios, questiono-me sobre o quanto esse ambiente favoreceu aqui a inovação e o desenvolvimento de tecnologias disruptivas. O termo de comparação, claro, é o nosso Brasil. Em nosso País, a realidade parece se regular pela ‘Lei de Murphy’: ‘Se alguma coisa pode dar errado, dará’. A imprevisibilidade parece a única coisa previsível. Talvez o pior já tenha ficado para trás. Lembro-me de quando as empresas recebiam, diariamente, o boletim IOB, cartapácio com espessura de romance que nos atualizava sobre as mudanças em leis, normas, regras, jurisprudências etc.

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Nos últimos anos o Brasil melhorou muito. Mas o fato é que a imprevisibilidade na vida nacional vez por outra se revigora. Os exemplos do momento são tantos, na economia, na Saúde e na política, que não é preciso enumerá-los. O ponto sobre o qual proponho refletir é: em que medida essa imprevisibilidade generalizada nos impede de estabelecer cultura da inovação e de nos afirmarmos economicamente?

Por experiência, sabemos que a nossa convivência frequente com coisas que insistem em não dar certo alimenta moral baixo que é chamado de ‘complexo de vira-lata’. Em contraponto a essa atitude derrotista, no outro extremo há o espírito demasiadamente otimista dos que acreditam que a zorra geral estimula a criatividade do brasileiro, somos os reis do jeitinho. Como caricaturas, as duas versões devem ter seu quê de verdade. Mas creio que os aspectos negativos da imprevisibilidade superam os positivos e consomem energia vital das pessoas e das empresas.

Como superar esses obstáculos e replicar no Brasil o ecossistema das startups, empresas focadas na tecnologia e na exploração de novos mercados, movimento que mobiliza sobretudo os jovens em países como Suíça, Estados Unidos, Reino Unido e Israel? Como fazer para que a cultura da inovação concorra com a cultura do futebol ou da passarela como ideal de ascensão, realização e progresso entre nossa juventude?

Conhecendo a cultura nacional, não é o caso de almejar sociedade em que a previsibilidade beire o tédio. Mas podemos e devemos nos insurgir contra o culto do erro. Faríamos bem sim em promover mudança disruptiva para impor, como nova regra da nacionalidade: doravante, se alguma coisa puder dar certo, ela dará certo. Em forma de palavra de ordem, deveríamos proclamar: ‘abaixo a Lei de Murphy’!

Artigo publicado originalmente no Diário do Grande ABC em 6 de março de 2016.


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