Além da carne: a revolução da comida feita em laboratório

Há alguns dias um protesto dos produtores de carne na porta das agências de um dos maiores bancos do País ganhou as manchetes nos veículos de imprensa. O churrasco na calçada foi a resposta a um anúncio do banco endossando a campanha “Segunda sem carne”.

A criação de animais é responsável por uma parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa. O gado responde por cerca de 14,5% das emissões globais de gases do efeito estufa. Por outro lado, há necessidade de garantir a alimentação.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), será necessário aumentar a produção de alimentos em 70% até 2050 para suprir a demanda gerada pelo aumento populacional. O desafio é grande devido às limitações de recursos e terras, abrindo oportunidades para novas produções de alimentos e o aprimoramento da sustentabilidade das produções atuais.

Nesse cenário, a agricultura celular ganha uma perspectiva promissora. Ela é uma das alternativas para produzir alimentos sem precisar criar ou abater animais. E não se restringe à carne produzida em laboratório. Com ela, é possível produzir também leite, aves, peixes ou outros produtos. Inicialmente, as tecnologias para produzir esses alimentos em laboratório partiam de células-tronco ou DNA dos animais. Mas novas técnicas vêm sendo criadas.

Na Califórnia, dois bioengenheiros criaram uma startup que produz um líquido com as mesmas propriedades e sabor do leite em laboratório. No processo, em vez de retirar DNA de uma vaca, eles inserem nos fungos genes já decodificados para as proteínas do leite. Os fungos então produzem as proteínas em um processo de fermentação e o produto resultante, muito similar ao leite, pode ser usado para fabricar sorvetes ou queijos cremosos.

Pesquisadores em diversas partes do mundo vêm desenvolvendo processos para produzir carne celular de diferentes animais, como carneiro, porco, peixe e galinha. Mas ainda há uma série de limitações para que a carne, leite e outros produtos feitos em laboratório cheguem ao mercado, como o ainda elevado custo e a necessidade de criar escala, além da garantia de atendimento dos padrões alimentícios.

Muito além dos laboratórios

Mas os cientistas estão desenvolvendo também outras inovações para reduzir emissões. Entre elas, estão a inclusão de enzimas e aditivos na ração animal, o manejo de pastagens para melhorar o processo de digestão e até uma vacina para reduzir a quantidade de gás metano produzida pelos animais.

Embora a tecnologia possa nos ajudar a reduzir consideravelmente a pegada de carbono na produção de alimentos, o esforço deve passar também por mudanças de comportamento dos consumidores. Há poucas décadas, a produção de alimentos era suficiente para alimentar bem mais do que a população mundial. A estatística aponta que cerca de 17% dos alimentos produzidos em todo o mundo são desperdiçados.

Segundo a FAO, o desperdício acontece em todas as etapas, na colheita ou produção, transporte, processamento, varejo e nas residências. Cada uma delas gera uma pegada de carbono. Isso significa que, além do desperdício do carbono liberado durante a produção dos alimentos, gases do efeito estufa são liberados para a atmosfera à medida que esses alimentos se deterioram.

Reduzir o desperdício de alimentos melhorando os métodos de armazenagem, refrigeração e transporte, assim como a distribuição racional, podem contribuir para conter o aquecimento global.

Para o mundo atingir o objetivo de zero emissão de carbono até 2050, como definido no Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, todos nós precisaremos fazer a nossa parte.