Algoritmo com acesso a dados do Spotify consegue prever que música fará sucesso

Possivelmente com ainda mais precisão do que aquela registrada pelos mais experientes executivos de gravadoras, já é possível prever por meio da Inteligência Artificial (IA, na sigla em inglês) que música vai fazer sucesso ou não, mesmo antes de ela sequer ser apresentada ao público. Foi isso que demonstrou uma pesquisa feita por dois jovens pesquisadores da San Francisco University, Kai Middlebrook e Kian Sheik, publicada na arXiv, revista especializada da Cornell University.

Eles testaram quatro modelos de algoritmos na tentativa de ensinar máquinas a prever, com base em dados pré-coletados, quais seriam as músicas que teriam a maior chance de se transformar em hits. Para isso usaram o API do Spotfy, o serviço de streaming de música mais popular do mundo. API é a sigla para Application Programming Interface ou, em português, Interface de Programação de Aplicativos, a matriz de programação a partir da qual algum aplicativo é desenvolvido. Middlebrook e Sheik recolheram dados de 1,8 milhão de músicas, que incluiam recursos como andamento, tom,  instrumentos usados e assim por diante. Somaram a essas informações aproximadamente 30 anos de dados do Billboard Hot 100, a parada de sucessos dos Estados Unidos, e acabaram por chegar à conclusão de que há um padrão muito claro e bastante repetitivo sobre as chances de alguma música fazer sucesso massivo.

A partir desses dados, o estudo usou as quatro configurações para testar o nível de acerto de cada uma delas a respeito de músicas que de fato fizeram sucesso no passado. Essa foi uma forma de comprovar que a AI poderia ter previsto que determinado artista de outra época teria o reconhecimento do público que de fato foi observado. Eles descobriram que a arquitetura SVM (máquina de vetores de suporte) alcançou a maior taxa de precisão (99,53%).

O estudo teve origem nos esforços da dupla para testar modelos de classificação automática de ritmos musicais, de forma a organizar a experiência dos usuários sem que uma intervenção humana fosse necessária para cada nova música indexada ao Spotfy. Em suas pesquisas futuras, os pesquisadores planejam investigar outros fatores que podem contribuir para o sucesso, como presença nas mídias sociais, experiência do artista e influência da gravadora.

AI e liberdade artística

“Quando pensamos em AI, normalmente nos chega à mente aplicações em laboratórios ou em situações que nos parecem ainda afastadas do uso comum”, diz o especialista em tecnologia disruptivas Arie Halpern, que completa: “O seu uso está se tornando cada vez mais disseminado, e pode chegar, como nesse caso, a prever o sucesso de um fenômeno artístico, algo que seria inimaginável apenas algum tempo atrás”. No entanto, Halpern adverte a respeito de algo que os próprios desenvolvedores do estudo admitem como possível efeito indesejável desse tipo de algoritmo: a criação artística já de antemão poderia ficar assujeitada àquilo que a máquina previsse como sucesso. “É um fator de risco, mas que certamente será contornado enquanto houver criatividade e desejo de explorar novas formas de expressão entre os humanos”, acredita o especialista.