Amônia verde abre novas perspectivas para produção de fertilizantes e transporte marítimo descarbonizado

À medida que a sociedade tenta encontrar maneiras de reduzir sua pegada ambiental, a descarbonização de uma ampla gama de setores e processos industriais se torna cada vez mais crucial. O tempo é essencial quando se trata de encontrar novas soluções e tecnologias para fazer isso.

Recentemente, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alertou em seu relatório alertou que limitar o aquecimento global em 1,5 graus Celsius ou até mesmo 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais está além do que conseguiremos alcançar nas próximas duas décadas se não fizermos reduções imediatas, rápidas e em grande escala nas emissões de gases de efeito estufa.

Neste cenário, várias empresas estão empenhadas em buscar formas para diminuir o impacto ambiental da produção de amônia, responsável por aproximadamente 1,8% das emissões mundiais de dióxido de carbono.

Três grupos noruegueses, a usina de energia Statkraft, a Aker Clean Hydrogen e a especialista em fertilizantes Yara, anunciaram a criação de uma joint venture focada na produção da chamada amônia verde. Produzida com energia de fontes renováveis, a substância será usada para produzir fertilizantes sem carbono. A amônia verde é também um combustível promissor para o setor marítimo, já que tem emissão zero.

A HEGRA, como foi batizado o empreendimento, será responsável pela eletrificação e descarbonização de uma planta de amônia naquele país. Esse é o primeiro passo para a criação de um mercado regional de hidrogênio e amônia, abrindo uma nova perspectiva para as indústrias marítimas e de processamento norueguesas.

Segundo o anúncio, o projeto de descarbonização reduzirá as emissões de CO2 em 800.000 toneladas anuais, o equivalente a 300.000 carros movidos a combustível fóssil. Será uma importante contribuição para que o setor marítimo norueguês cumpra a meta de cortar pela metade suas emissões até 2030.

Mais espaço para combustível e alta toxicidade

Outros projetos com energias renováveis para produção de amônia em larga escala estão em desenvolvimento em países como a Austrália, Cingapura e nos Estados Unidos. No Japão foi dado um passo adiante. A empresa de engenharia e construção naval, Imabari Shipbuilding, está construindo um navio de carga movido exclusivamente a amônia. A previsão é de ele esteja pronto para navegar até 2026.

“Há muitos avanços sendo feitos em áreas fundamentais, como a produção da amônia. Embora sejam menos mediáticos, esses processos têm grande impacto ambiental e se desdobram em diversos setores econômicos”, explica Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas. “Este é um passo necessário para garantirmos um futuro sustentável para o planeta”, conclui o executivo.

Um dos desafios deste projeto é que o combustível libera menos energia do que o óleo pesado. Isso faz com que seja necessário aumentar significativamente o tamanho do tanque de combustível reduzindo o espaço destinado à carga. Outra preocupação é o fato de a amônia ser altamente tóxica, exigindo uma série de cuidados. De acordo com a Agência Internacional de Energia, a amônia deve responder por 46% da energia consumida no transporte marítimo em 2050.

Navios movidos à amônia verde devem se tornar uma realidade em poucos anos. Além do transporte de minérios e outras commodities, já existem projetos para usá-los no transporte de automóveis. A descarbonização é uma demanda das montadoras. A Volkswagen, por exemplo, já exige que os transportadores usem embarcações movidas a gás natural liquefeito, que emite menos dióxido de carbono do que o óleo combustível.