Análise de dejetos pode identificar focos da Covid-19

A transmissão em progressão geométrica da covid-19, a dificuldade e os custos para produzir testes suficientes para milhões de pessoas no mundo estão levando as autoridades e especialistas em saúde a buscar formas inovadoras para conseguir determinar a escala de contágio e detectar focos da doença. O fato de muitas pessoas contaminadas com o novo coronavírus serem assintomáticas torna o problema ainda mais complexo e dificulta a adoção de medidas de combate em locais em que o problema é mais crítico.

Equipes de cientistas e epidemiologistas descobriram nos dejetos dos sistemas de saneamento das cidades uma fonte confiável capaz de identificar focos da doença e traçar sua propagação. Uma grande concentração de partículas do vírus no esgoto numa determinada região pode ser o alerta para ações imediatas de medidas de precaução naquela comunidade.

A ideia de que a análise de amostras de esgoto poderia servir para identificar a presença de material genético do Sars-CoV-2 surgiu depois que pesquisas revelaram que partículas do vírus seriam eliminadas nas fezes e outros fluídos do organismo.

Há algumas semanas, uma equipe de cientistas da startup Biobot Analytics, criada dentro do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e do Bringham and Women’s Hospital, da Universidade de Harvard, analisou uma amostra de uma estação de tratamento de esgoto em Massachusetts. Pela análise, eles estimaram que haveria mais de 2.000 pessoas infectadas com o novo coronavírus na região, enquanto os casos confirmados não chegavam a 500.

Em Amersfoot, na Holanda, os cientistas detectaram partículas do vírus no esgoto da cidade antes mesmo do registro do primeiro caso oficial de contágio. No Brasil, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) estão analisando amostras do sistema de coleta de esgoto de Niterói, no Rio de Janeiro, para verificar a presença de material genético do Sars-CoV-2.

 

Segredos decifrados

A análise de dejetos já foi usada por cientistas para detectar outras doenças infecciosas causadas por vírus conhecidos, como a pólio, por exemplo. Na Europa, foram realizados vários estudos para identificar a resistência a antibióticos por meio da análise dos dejetos dos sistemas de esgoto.

Um dos primeiros projetos da Biobot foi a detecção de traços de opioides no esgoto para verificar padrões de uso de drogas em determinadas comunidades, com o objetivo de identificar possíveis ameaças à saúde dos moradores e desenvolver medidas para o combate e o tratamento.

Os sistemas que coletam toneladas de dejetos carregam informações importantes sobre a saúde de seus habitantes e as substâncias que eles consomem. O poeta francês Victor Hugo escreveu que o esgoto é a consciência das cidades, um lugar em que não há segredo e onde as diferenças de classe são insignificantes. “A ciência fez com que conseguíssemos decifrar esses segredos obtendo informações precisas sobre as condições de saúde das pessoas”, pontua Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.