Aquamação: a alternativa ecológica de cremação escolhida por Desmont Tutu

A morte do arcebispo sul-africano Desmond Tutu (1931-2021), que foi uma das maiores vozes na luta contra o apartheid e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1984, trouxe à tona um novo termo e uma técnica até então desconhecidos para a maioria das pessoas para a cremação de corpos: a aquamação.

Chamado também de cremação líquida, o procedimento é tido como uma alternativa mais ecológica à cremação tradicional e ao ao sepultamento comum. Por isso, também é chamada de cremação verde. A técnica reduz o corpo a cinzas, como acontece na cremação, mas sem a combustão causada pelo fogo. A cremação tradicional requer grande quantidade de energia para alimentar o fogo e bombear milhões de toneladas de dióxido de carbono. A técnica foi escolhida pelo próprio Tutu para a cremação de seu corpo.

De acordo com a empresa escocesa Resomation, especializada em aquamação, análises independentes mostraram que a cremação líquida reduz em torno de 35% a emissão de gases de efeito estufa em comparação com o processo tradicional. Além disso, o consumo de energia é 90% menor, segundo a americana Bio-Response Solutions. Os especialistas afirmam que a aquamação é o processo que causa o menor impacto ambiental entre as alternativas disponíveis.

Cientificamente chamado de hidrólise alcalina, o processo consiste em esquentar o corpo em uma mistura de hidróxido de potássio e água, a uma temperatura de 150°C, por 90 minutos. Isso faz com que o tecido corporal se dissolva. Os ossos são enxaguados a 120°C, secos e pulverizados em uma máquina chamada cremulador. Depois disso, os restos mortais podem ser enterrados ou espalhados, como é feito com as cinzas na cremação comum. A água resultante do processo contém somente aminoácidos, peptídeos, açúcares e sais.

Fertilizantes feitos com carcaça de animais

“A hidrólise alcalina é o processo que ocorre naturalmente quando um corpo se decompõe. A diferença é o prazo. No processo natural ele pode levar até 20 anos, enquanto na aquamação são necessárias apenas algumas horas”, explica Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas. Um artigo científico, escrito pelo especialista em ética tecnológica da Virginia Tech University Philip Olson e publicado na revista especializada Science, Technology, & Human Values aborda as vantagens do uso da técnica.

O uso da hidrólise alcalina na decomposição surgiu em 1880, quando um agricultor desenvolveu o processo para fazer fertilizantes a partir de carcaças de animais. Durante a epidemia de BSE (a chamada doença da vaca louca), a aquamação foi a alternativa adotada para as carcaças das vacas e destruição dos patógenos.

O processo voltou a ser usado mais recentemente, na década de 1990, pelos pesquisadores do Albany Medical College, nos Estados Unidos, como alternativa mais eficiente e barata para descartar restos de animais usados em experimentos em laboratório, que continham substâncias químicas.

Embora seja uma alternativa considerada mais ecológica, a técnica ainda é legalizada em poucos lugares, como no Reino Unido,  Canadá, Japão e Grécia, além de alguns dos estados americanos.