Arie Halpern: Bill Gates quer combater a Zika com disruptura na vida do mosquito

Os vírus têm sido uma presença constante na vida de Bill Gates desde que elegeram os produtos da Microsoft como a porta de entrada preferencial para infectar computadores. Agora, aposentado como o homem mais rico do mundo, o pai do Windows, decidiu dedicar parte de seu tempo e uma fração de sua fortuna a combatê-los também fora da realidade virtual. Por intermédio da Fundação Bill e Melinda Gates, que tem como um de seus objetivos promover a saúde, com especial atenção para os países e as comunidades pobres, ele patrocina pesquisas para desenvolver um antivírus para o trio de pragas zika, dengue e chikungunya. As três já infectaram milhões de pessoas em zonas tropicais e subtropicais e a zika está associada à ocorrência de milhares de casos de microcefalia em bebês de mães que contraíram a doença. Elas têm em comum o mosquito Aedes aegypti como transmissor da doença e sobre ele concentram-se as atenções dos cientistas da Universidade de Monash, na Austrália, no projeto patrocinado por Gates.

O plano dos cientistas é infectar os mosquitos com um antivírus – na verdade uma bactéria, a Wolbachia que quando está presente impede o mosquito de hospedar os vírus daquelas e de outras doenças. Outras características da bactéria favorecem a estratégia de ataque. Uma delas é que a Wolbachia se transmite aos filhotes no processo de reprodução dos mosquitos – o que favorece a disseminação do “antivírus” por um meio natural. Outra é o fato de  60% dos mosquitos, de diversas espécies, são portadores da bactéria, à exceção do Aedes aegypti. Isso permite supor que a intervenção humana para contaminar os transmissores da zika não contraria totalmente a ordem natural. Quer dizer, não se trata de criar uma anomalia, uma espécie de Aedes frankenstein, mas de provocar uma disruptura na vida do mosquito.

Para invadir o sistema dos Aedes aegypti serão espalhados ovos de mosquitos artificialmente infectados com o Wolbachia em áreas de maior infestação. O ataque deve se iniciar assim que terminarem os testes, o que deve ocorrer até o final do ano segundo declaração de Bill Gates ao correspondente do Estadão, Jamil Chade. As áreas urbanas do Rio de Janeiro e de Antioquia, na Colômbia, serão os primeiros alvos da ação.

A Fundação Gates mantém, entre outros, o programa Grandes Desafios que a cada ano promove uma seleção de projetos inovadores para solucionar problemas da área de saúde. Foi através dele que chegou à instituição o trabalho que os pesquisadores da Universidade de Monash vinham desenvolvendo a quase uma década. A pesquisa originalmente visava o combate à dengue. Com a eclosão das outras epidemias, a urgência por resultados aumentou e também a necessidade de patrocinadores. Os Gates destinaram-lhe com 18 milhões de dólares. Também apoiam o projeto a fundação filantrópica inglesa Wellcome Trust e os governos do Brasil, da Colômbia, dos Estados Unidos e da Inglaterra e a Organização Mundial da Saúde.


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