Arie Halpern: grandes bancos podem aprender com as fintechs

Arie Halpern: grandes bancos podem aprender com as fintechs

Arie Halpern: grandes bancos podem aprender com as fintechs

As instituições financeiras passaram por profundas transformações nos últimos anos: os adventos da internet e dos mobiles forçaram os bancos a sofisticar as ferramentas de atendimento ao cliente e as ameaças de fraude os obrigaram a rever os processos de segurança digital. Agora, é a vez de uma nova geração de empresas, as fintechs, operarem mudanças importantes nesse mercado.  Essas empresas usam tecnologia e inovação para oferecer serviços financeiros de forma mais rápida e, teoricamente, com menos custos do que os bancos. Para entender melhor esse cenário, os editores do Disruptivas e Conectadas conversaram com Arie Halpern, economista e empreendedor com foco em inovação e tecnologias disruptivas.

Como os bancos têm encarado a chegada das fintechs ao mercado financeiro?

Arie Halpern: Grandes bancos sabem que têm fragilidades, mas sabem também que são grandes demais para serem empurrados para fora do mercado com facilidade. Em geral, eles têm observado a atuação das fintechs e estudado como podem entrar nesse jogo.

Quantas fintechs existem atualmente no mercado?

Arie Halpern: Calcula-se que haja atualmente cerca de 4 mil fintechs em atividade e, pelas contas da Goldman Sachs, considerando os segmentos em que elas atuam, a fatia do mercado que está em jogo responde por uma receita anual de cerca de US$ 4,7 trilhões.

Como os bancos estão lidando com esses novos concorrentes?

Arie Halpern: Agora, o que tem predominado é o movimento em direção à inovação disruptiva. A emergência das fintechs expôs as fragilidades das estruturas do sistema bancário. Pesadas e lentas, elas não foram capazes de identificar ou de responder às novas necessidades dos consumidores, em especial dos jovens consumidores, e perderam espaço. Um estudo até engraçado da consultoria norte-americana Scratch, o “Millenial Disruption Index”, diz que os consumidores da geração internet preferem ir ao dentista a ouvir o que os bancos têm a dizer. Os jovens não procuram mais os bancos quando precisam de auxílio financeiro. Se os bancos quiserem conquistar esses consumidores, eles não podem manter os modelos antigos, mas terão de explorar novas possibilidades, como as startups do ramo financeiro vêm fazendo.

Como as fintechs têm ganhado espaço nessa disputa, além da aproximação com os mais jovens?

Arie Halpern: Principalmente por meio de investimentos de outras empresas e até crowdfunding. Em 2015, as startups financeiras atraíram US$ 19 bilhões em investimentos, dez vezes o valor obtido em 2010, segundo os cálculos do Citygroup. E os casos de sucesso se multiplicam. Nos Estados Unidos, uma empresa como a Lending Club já movimenta mais de US$ 9 bilhões em empréstimos ao ano, o que representa quase 10% do movimento dos cartões de crédito naquele país.

O que os bancos e outras empresas grandes do setor financeiro têm feito para competir com as fintechs?

Arie Halpern: As gigantes da tecnologia têm oferecido serviços novos, como Google Wallet, Apple Pay, Amazon Payments, Samsung Pay e Pay-Pal. Além de poderosas, essas empresas sabem lidar muito bem com os consumidores e podem vir a representar uma ameaça bastante séria para as fintechs, que ainda estão conquistando seu espaço. No Brasil, uma das maiores fintechs é o Nubank, que surgiu em 2013 e atualmente tem mais de 1 milhão de clientes do seu substituto de cartão de crédito, e do Intoo, que oferece crédito para empresas. Os grandes bancos estão de olho nessas mudanças e empenhados em criar braços para participar desse mercado. Veja-se o exemplo, no Brasil, do Bradesco, que criou um fundo para investir em fintechs, o InovaBRA. Segue o mesmo caminho de grandes corporações internacionais como Santander, que também criou um fundo, o InnoVentures, e o Barclays, que constituiu uma incubadora de fintechs.

Podemos esperar alguma forma de junção entre fintechs e bancos no futuro?

Arie Halpern: Se há forças poderosas a favor da disrupção, também há muitos fatores de atração entre os players desse mercado que podem conduzir a um processo de fusão. As próprias fintechs, segundo pesquisa da Unidade de Inteligência do The Economist, reconhecem nos bancos atributos que lhes faltam: uma grande base de clientes, reputação de confiabilidade e estabilidade, experiência regulatória, linha completa de serviços bancários, grande capacidade financeira e expertise em gerenciamento de risco. Os bancos, por sua parte, sonham em dispor dos recursos que sobram nas fintechs e engessam suas estruturas: capacidade de inovar, agilidade em responder ao mercado, expertise tecnológica, capacidade de aperfeiçoar produtos e, até que as leis e normas sejam alteradas para alcançar os novos negócios, usufruir da baixa pressão regulatória. O que esses movimentos nos mostram é que o processo de evolução é tão complexo e imprevisível no mercado quanto na natureza. Há disruptura ao mesmo tempo que há integração. Em que medida essas tendências vão contribuir para dar uma nova cara ao mercado financeiro é a grande charada que só o consumidor pode resolver.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *