Arie Halpern tem artigo publicado no jornal “Diário do Grande ABC”

Verdades e mentiras disruptivas

facebook

Depois de tornar-se quase onipresente na vida de cerca de 1,8 bilhão de pessoas, o Facebook se defronta com a necessidade de tornar-se também cada vez mais onisciente. Há poucos dias, a empresa anunciou medidas para reduzir o alcance das notícias falsas divulgadas por intermédio de sua rede – notícias que podem ter influenciado o destino do mundo, como a de que o Papa Francisco apoiava o então candidato Donald Trump, o que o teria ajudado a conquistar a presidência dos Estados Unidos. Entre outras medidas, o Facebook vai utilizar os serviços de agências externas para conferir a veracidade das histórias postadas. Se concluírem que é falsa, a notícia não será retirada da rede, mas exibirá uma etiqueta com a classificação apropriada.

A ideia é cercar o problema sem cercear a manifestação das pessoas e sem prejudicar o business – que vive de fazer bombar o fluxo de notícias para manter seus usuários pendurados em média 50 minutos por dia na rede. O serviço de checagem, por ora, só estará disponível, em caráter experimental, nos EUA.

A questão é importantíssima e de difícil resolução. Traz à luz o problema da vulnerabilidade da sociedade, que parece crescer, como uma resultante do avanço tecnológico e do sucesso de empresas globais. Facebook, WhatsApp, Twitter, Messenger, Uber, Waze, telefonia móvel, nuvens, big data, comércio eletrônico, meios digitais de pagamento etc. compõem a família dos sistemas, aplicativos, redes e plataformas que têm redesenhado nosso modo de vida. São os portadores de disrupturas que tornaram o cotidiano mais fácil e dos quais nos tornamos dependentes. Para mitigar os riscos é preciso que haja fiscais. Mas, quem fiscaliza os fiscais?

O sistema de classificação nos coloca diante desse e de outros paradoxos. Uma das agências credenciadas pelo Facebook, a Lupa, utiliza sete etiquetas para classificar as notícias. Entre as categorias “verdadeira” (“a informação está comprovadamente correta”) e “falsa” (“comprovadamente incorreta”), há etiquetas como “Ainda é cedo para dizer”, o que significa que “A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é.” Outra etiqueta é “Exagerada”, usada quando “A informação está no caminho correto, mas houve exagero”. A empreitada de querer classificar as informações na rede, de tão ambiciosa, beira a ficção. E traz a tiracolo o perigo da manipulação da verdade em nome do combate à mentira. Um dos resultados imediatos será a valorização das fontes tradicionais de informação, jornais e serviços noticiosos.

Artigo publicado originalmente no Diário do Grande ABC em 4 de janeiro de 2017


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