Arie Halpern: Vazamento do WikiLeaks mostra a privacidade ameaçada

Arie Halpern: Vazamento do WikiLeaks mostra a privacidade ameaçada

Após as revelações do WikiLeaks sobre os métodos de espionagem da Central de Inteligência Americana – CIA – perdemos a confiança em um membro da família que parecia insuspeito. O aparelho de televisão, instalado na sala de estar, no centro da vida doméstica, ou no quarto, onde testemunha nossa mais recôndita intimidade, transformou-se em um potencial espião. Por intermédio dos documentos secretos vazados pelo site no dia 7 de março, sob o título de “Vault 7: CIA Hacking Tools Revealed”, descobrimos que, se o aparelho de TV tiver sido invadido por hackers, além de transmitir novelas e seriados, ele pode ser usado para capturar as conversas dos circunstantes. O detalhe assombroso é que é capaz de fazer isso ainda que esteja fora da tomada!

Essa funcionalidade – ou melhor, desfuncionalidade – se tornou possível com o advento das chamadas televisões inteligentes ou smart TVs. São assim chamadas porque fazem parte da família de eletroeletrônicos digitais de última geração que funcionam conectados a uma rede e nos chegam na onda da Internet das Coisas, fronteira das novas disrupturas que vêm para modificar radicalmente nossas vidas. Da conexão à internet é que surge o atrativo para os invasores e espiões de toda sorte, movidos por interesses criminosos, políticos, comerciais, de segurança, para o bem e para o mal. Assim como já acontece há muito com os computadores e mais recentemente com os smartphones que são alvos de programas maliciosos, vírus e outras formas de intrusão. À medida que a internet das coisas avança, não poderemos mais olhar com ingenuidade para a geladeira, o fogão, o aparelho de som, o ar condicionado, o porteiro eletrônico e nada que esteja conectado a uma rede.

O escândalo em que foi pega a CIA, em parceria com os serviços de inteligência britânicos, joga luz sobre essa que é uma das questões mais sensíveis de nossa época: é o fim da privacidade? Estamos condenados, doravante, a ver nossa vida monitorada pelos arapongas dos serviços de informação? Nesse aspecto, a notícia sobre o envolvimento da CIA choca por que se trata de um braço do Estado – um braço peludo que nos dá uma ideia de que por trás dele haja um monstro. Como não lembrar do Grande Irmão, o Big Brother, que tudo controlava através das teletelas no romance genial de George Orwell, o 1984, escrito em 1948.

Sim, essa intrusão do Estado em nossa intimidade é assustadora. Mas quantas vezes ao dia não abrimos mão alegremente da nossa privacidade, seduzidos pelos serviços que a conectividade e a mobilidade nos oferecem? Fazemos isso sem pensar em quanto nos tornamos vulneráveis ao compartilhar com o Google todas as nossas indagações. Nossa localização não é mais segredo para ninguém, pois há uma infinidade de aplicativos seguindo nossos passos por onde quer que andemos e câmeras espalhadas por todos os cantos. Distribuímos os dados de nosso cartão de crédito com despreocupação, movidos pela fé de que os sistemas de segurança dos aplicativos são invioláveis (a propósito, os vazamentos da CIA mostraram o emprego de estratagemas para burlar mesmo os robustos sistemas de criptografia dos aplicativos de comunicação e dos aparelhos celulares). Para culminar o processo, postamos zilhões de fotos nas redes sociais, sem pensar que estão sendo treinados robôs, dotados de inteligência artificial, capazes de reconhecer e organizar dados, para fazer uso de todo esse imenso acervo de informação em forma de imagem.

É um processo de crescente abdicação da privacidade o que está em marcha e, podemos afirmar, pelas facilidades que as inovações tecnológicas trazem à vida ordinária, ele é irrefreável. Como evitar, então que essa vaga nos arraste para um pesadelo no futuro, um lugar em que não haja privacidade e a liberdade esteja ameaçada? Não há respostas cabais para essa questão no momento. Elas terão de ser elaboradas coletivamente pela sociedade, à medida que os problemas apareçam – como apareceram nos vazamentos tornados públicos pelo WikiLeaks. Graças a eles, já aprendemos que devemos desconfiar até mesmo da televisão. É um avanço importante.


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