Arqueólogos cada vez mais nerds, cada vez menos Indiana Jones

O uso de tecnologia de mapeamento 3D pode levar à localização de mais artefatos arqueológicos no leito do mar Egeu, a partir da descoberta recente da cabeça de uma estátua de Hércules. Enquanto isso, no Canadá, a tecnologia de datação por radiocarbono comprovou que Cristóvão Colombo não foi o primeiro navegador a cruzar o Oceano Atlântico, inaugurando a rota Europa – América do Norte.

A rotina de achados importantes por meio de novas tecnologias também está presente nos sítios arqueológicos da antiga Pompeia, no Sul da Itália, no entorno do vulcão Vesúvio. Uma nova técnica que combina raio X de alta energia e inteligência artificial possibilitou decifrar pergaminhos romanos milenares.

Na mesma região, tecnologias inovadoras de escavação possibilitaram a retirada de uma biga romana em excelente estado de conservação, a ponto de ser chamada pelos especialistas de “Lamborghini das bigas”.

“O uso de novas tecnologias em pesquisas arqueológicas têm proporcionado descobertas disruptivas, verdadeiras quebras de teorias acadêmicas postas a séculos, o que é muito bom”, avalia Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas. Ou seja, os bons arqueólogos modernos são nerds e não vivem dias parecidos com a rotina retratada nos filmes de Indiana Jones. Caros George Lucas e Harrison Ford, não fiquem desapontados.

Muito além dos 12 trabalhos de Hércules

A cabeça de uma estátua do herói grego da força, com 2 mil anos de idade, foi encontrada no mês passado no fundo do mar Egeu, em Anticítera, onde houve o naufrágio de uma embarcação grega, no século I.

De acordo com o The New York Times, a partir da localização desse artefato e de outras peças dispostas ao redor, uma equipe da Escola Suíça de Arqueologia vai iniciar uma nova etapa da exploração com tecnologia de mapeamento 3D para produzir, em computação gráfica, imagens das áreas mais prováveis em que outras partes do navio e demais objetos devem estar.

Além disso, os arqueólogos vão utilizar a tecnologia para documentar digitalmente a aparência de cada artefato ou destroço do navio antes da remoção. O processo de retirada do fundo do mar oferece risco à integridade das peças que, mesmo extraídas com cautela, podem sofrer danos ao serem trazidas para a superfície, devido à descompressão.

O trabalho nesse sítio arqueológico deve se estender até 2025 e contará com a colaboração da fabricante de relógios suíça Hublot. Para a etapa atual, a companhia criou um sistema de balões que elevou as pedras submersas, possibilitando acesso aos artefatos. Para o ano que vem, a empresa vai fornecer robôs que poderão fazer parte do trabalho dos mergulhadores.

Os vikings chegaram primeiro e a confirmação veio do cosmo

Uma nova técnica que utiliza a astrofísica em auxílio à arqueologia deu uma resposta definitiva para as teorias que apontavam a possibilidade de os vikings terem atravessado o Oceano Atlântico, chegando à América do Norte, antes de Cristóvão Colombo.

O sítio arqueológico de L’Anse aux Meadows, no Canadá, foi descoberto há décadas e logo ficou claro que era composto por resquícios de cabanas e oficinas desses povos nórdicos. Porém, a tecnologia disponível na década de 1960 não permitia aferir com precisão a idade das estruturas e dos objetos presentes no local. A datação por radiocarbono, que estava pouco desenvolvida quando o local foi estudado pela primeira vez, produziu resultados inconclusivos.

A equipe de Michael Dee, geofísico e arqueólogo da Universidade de Groningen (Holanda), contou ao Wired que aplicou a tecnologia mais recente de detecção de carbono-14 e conseguiu, com precisão de meses, determinar a idade da madeira presente em inúmeros artefatos encontrados em L’Anse aux Meadows.

Esse novo estudo colocou os vikings na América do Norte em 1.021 – 471 anos antes de Colombo.

A chave para a técnica é uma explosão de partículas energéticas do espaço – provavelmente do sol – que atingiu a atmosfera da Terra no ano 992. A enxurrada de partículas desencadeou a produção de carbono-14, um isótopo radioativo de carbono, absorvido pelas plantas de todo o mundo no ano seguinte.

As árvores vivas naquela época desenvolveram um anel característico que documenta esse pico de carbono-14. Então, ao encontrar madeira proveniente de uma árvore viva quando a tempestade solar extrema aconteceu, é possível contar os anéis de crescimento a partir do anel em que o pico de radiação foi medido e determinar a data em que foi derrubada.

E foi justamente o que os arqueólogos encontraram em L’Anse aux Meadows: instrumentos e estruturas de madeira originária de árvores cortadas em 1.021.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *