Aumento no tráfego desafia provedores de internet

Na penúltima segunda-feira de março, o tráfego na internet brasileira atingiu o pico de 11Tb/s, segundo o IX.br , projeto do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGIbr) que promove e cria a infraestrutura necessária para a interconexão direta entre as redes que compõem a internet Brasileira. A estimativa é que o aumento no uso das redes de operadoras e provedores seja de 30% no Brasil. O expressivo crescimento no uso da rede desde o início da pandemia do novo coronavírus é global. Na Itália, um dos países mais afetados pela doença até agora, chega a 40%.

 

A Covid-19 está provocando umas das maiores e mais rápidas expansões na internet. O uso de serviços online, que vão de notícias à compra de itens para o dia a dia, dos serviços de streaming e a realização de videochamadas dispararam. O maior salto foi no acesso a vídeos,  responsáveis por 65% do tráfego da internet, de acordo com a Sandvine. Tanto assim que, como medida de precaução, as grandes empresas de streaming de vídeo concordaram em reduzir a qualidade da transmissão e o envio de atualizações para não sobrecarregar a rede.

 

Além disto, houve uma mudança importante no perfil de uso, com o acesso sendo feito em horários e lugares diferentes. A  Cloudflare, empresa americana de infraestrutura de rede, produziu mapas que revelam como a atividade humana migrou dos centros das cidades para as regiões residenciais. Agora, as provedoras de internet precisam lidar com o tráfego de vários locais, em vez de um número menor de hubs, em que diversos usuários se conectam a partir de um prédio de escritórios, um campus universitário ou a sede de um grupo empresarial por meio de uma conexão de alta velocidade.

 

Além do aumento do tráfego, a quarentena trouxe outros desafios ao funcionamento da rede. As conexões domésticas (as chamadas last miles, que vão de um data center até as residências) são geralmente os links mais fracos e tendem a ter largura de banda menor do que as de uma empresa, escritório ou escola. Assim são mais suscetíveis a lentidão e congestionamento, especialmente com várias pessoas usando-as ao mesmo tempo.

 

Para garantir o atendimento a essa nova demanda e evitar falhas, as gigantes da internet estão trabalhando na atualização e expansão das redes. A instalação de servidores extras nos grandes hubs de cada região e parcerias com provedores de banda larga para estabelecer conexões dedicadas são algumas das alternativas em curso. Na África do Sul, onde milhões de pessoas acessam a internet somente por celular, o governo alterou a regulação, permitindo o uso do espectro de rádio até então destinado exclusivamente a transmissões de TV.

 

Serviço de utilidade pública

Apesar do significativo e rápido crescimento na demanda e da sobrecarga na infraestrutura, a rede tem apresentado poucas falhas, segundo as organizações que monitoram as velocidades de conexão em todo o mundo. E, ao contrário de algumas previsões, não houve nenhuma grande falha. Se tecnologicamente superamos o teste, esse fenômeno expõe outro problema que precisa ser endereçado.

 

A pandemia da Covid-19 tornou evidente a necessidade de que o acesso à internet seja irrestrito, como os demais serviços essenciais de utilidade pública. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, em média, 77% da população em 34 países têm acesso à rede ao menos ocasionalmente ou possui um smartphone. Mas esse acesso varia muito, conforme o nível de desenvolvimento de cada país. Na Coreia do Sul e no Canadá, atinge 98% e 94%, respectivamente. Porém, na Índia, não passa de 38%.

 

Em alguns países da Europa e nos Estados Unidos, governos e operadoras entraram em acordo para eliminar os limites de pacotes de dados e manter o acesso mesmo em caso de inadimplência. “Vivemos um momento em que, mais do que nunca, é fundamental manter as pessoas conectadas, mesmo fisicamente distantes. Mesmo em meio aos complexos desafios tecnológicos, os provedores de internet estão atentos às responsabilidades no aspecto social”, pondera Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.