Blockchain: das criptomoedas às vacinas

Quatro hospitais no Reino Unido estão usando tecnologia blockchain para garantir o correto armazenamento das vacinas contra a covid-19. Sensores monitoram a temperatura dos refrigeradores em que elas são mantidas e transmitem os dados para uma plataforma na nuvem, onde são criptografados.

As vacinas contra covid-19 são o principal assunto do momento. Além das três já aprovadas para uso emergencial em vários países, há cerca de 150 outras formulações em desenvolvimento. E a variedade dá margem a discussões sobre a eficácia de cada uma. Mas há outra questão crucial que pode comprometer o resultado da imunização: a temperatura de armazenamento.

Como vários outros medicamentos, as vacinas são sensíveis a altas temperaturas. Se não guardadas da maneira certa, podem se tornar placebo, ou seja, perder seu efeito para criar anticorpos e combater doenças. No caso de um comprimido para dor de cabeça, tudo bem. No máximo, a dor não vai passar. Mas no caso de uma vacina para uma doença que pode matar…

Um levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicou que mais de um terço dos locais onde são guardadas vacinas tinham temperaturas abaixo do recomendado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 50% das vacinas são perdidas por condições inadequadas no armazenamento e no transporte. A maioria delas precisa ser mantida entre 2 e 8 graus centígrados, mas alguns dos imunizantes para covid-19 precisam ser armazenados a temperaturas mais baixas, que chegam a 70 graus negativos.

E é esse o desafio que o blockchain está ajudando a resolver. Com ele, dá para fazer um registro digital à prova de violação, contribuindo para garantir a eficácia dos imunizantes.

Caixas térmicas, espumas e gelo seco

O blockchain ganhou muita atenção há alguns anos, quando o valor de criptomoedas, como bitcoin, disparou. Grandes empresas e governos passaram a desenvolver projetos para substituir vários processos baseados em papel pela manutenção de registros digitais. E a tecnologia está se configurando uma alternativa altamente viável para alguns dos grandes desafios da humanidade.

Mas os quatro hospitais fazem parte do National Health Service (NHS), o sistema público de saúde britânico, administrados pela Fundação South Warwickshire, são os primeiros no mundo a fazer uso de blockchain na área de saúde.

Se o blockchain pode garantir a preservação das vacinas armazenadas em hospitais e clínicas, ainda temos o desafio de fazer o mesmo durante o transporte, especialmente em caminhões e veículos que as distribuem em cidades menores. Nessas situações, ainda dependemos daquelas caixas térmicas que parecem um isopor comum. Porém, seu desenvolvimento é bem mais complexo. Elas são feitas sob medida para atender as necessidades de conservação de cada formulação. E, em alguns casos, quando são necessárias temperaturas ainda mais baixas, são preenchidas com uma espuma especial ou, como já vimos, com gelo seco.

Só que essas são alternativas que têm limitações, especialmente quanto ao tempo de uso. “A tecnologia blockchain pode ser a solução para rastrear automaticamente a localização e as condições das vacinas, assim como a temperatura, até serem aplicadas nas pessoas, mantendo a qualidade e a eficácia e, provavelmente, até diminuindo custos”, avalia o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern.