Carne produzida em laboratório é a nova arma para conter o aumento da temperatura do planeta

Até há pouco tempo, os esforços para reduzir o aquecimento global estavam concentrados em ações para evitar as emissões de dióxido de carbono (CO2). Agora, outro gás causador do efeito estufa está no centro das atenções: o gás metano (CH4). Reunidos na COP26, a Conferência do Clima, mais de 100 países se comprometeram a reduzir as emissões de gás metano em 30% até 2030.

O efeito do metano é muito mais potente do que o do CO2 – estima-se que ele absorva 25 vezes mais calor durante sua permanência na atmosfera, que é de cerca de uma década, até que ele se decomponha naturalmente. O CO2 sempre foi o foco das políticas climáticas porque mantém-se no ar por mais de um século, mas o desequilíbrio recente das emissões de CH4 acendeu novo alerta. De acordo com os cálculos do último Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o metano é responsável por um quarto do aquecimento global atual. E grande parte das emissões é decorrente da agropecuária.

O foco no metano podia ser notado até nas refeições servidas durante a COP26, em Glasgow. Grupos de ativistas protestaram nas redes sociais, criticando que o cardápio do evento incluísse produtos de origem animal, como carne e lácteos, considerados os principais responsáveis pelas emissões antrópicas de metano. Vale mencionar que, além dos ingredientes e do preço, o cardápio trazia, em vez das calorias, a pegada de carbono de cada prato.

Carne feita em laboratório

“O foco na redução de emissões de gás metano para mitigar as mudanças climáticas deve dar impulso às pesquisas para desenvolver formas alternativas de proteínas, como a que vem sendo chamada de carne de laboratório”, prevê Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas. Ao contrário das alternativas feitas a partir de plantas, ela não é uma opção para vegetarianos e veganos. É carne mesmo.

Dezenas de startups em vários países vêm desenvolvendo processos promissores a partir de células de animais que, alimentadas com nutrientes, se transformam em tecido.

Retiradas do músculo do animal, sem necessidade de abate, as células são colocadas em um tanque de agitação (biorreator), onde são simuladas as condições fisiológicas do corpo do animal. Lá elas recebem nutrientes, como açúcares, vitaminas, aminoácidos e proteínas, e se multiplicam formando um tecido. Para fazer bifes mais grossos e com mais gordura, algumas startups estão usando impressoras 3D. Estudos mostram que a carne cultivada reduz em 95% o uso da terra, em 90% o consumo de água e em até 87% as emissões de gases.

As previsões são de que a carne feira em laboratório esteja à venda nos próximos dois ou três anos. Atualmente, somente em Cingapura é permitida a venda de proteína produzida totalmente em laboratório. Além dos aspectos regulatórios, o alto custo do processo é um obstáculo a se superar. O primeiro hambúrguer feito em laboratório, em 2013, custou US$ 330 mil dólares. Mas, como toda nova tecnologia, o valor deve cair com certa rapidez. Outro ponto que merece atenção é o elevado consumo de energia nas várias etapas de aquecimento e resfriamento durante o processo de produção.

Por isso, alguns especialistas acreditam que o caminho pode passar pela adoção de produtos híbridos, que combinam a carne à base de plantas com ingredientes, como gordura, cultivados em laboratório. As receitas, certamente, serão várias -todas elas buscando criar um produto que atenda às demandas ambientais e às expectativas dos consumidores.