Cidades esponja absorvem a água das chuvas em vez de lutar para contê-las

E se em vez de tentar conter as enchentes fazendo muros de concreto ou instalando extensos encanamentos, as cidades tivessem formas de absorver a água da chuva? Esse é o conceito de cidade esponja, que vem sendo adotado na China para gerenciar as águas pluviais e evitar inundações.

A gerenciamento convencional da água das cheias envolve a construção de canos ou drenos para escoar a água o mais rápido possível e também a elevação e o reforço das margens dos rios com concreto para que não transbordem. “O conceito de cidade esponja faz o contrário, adota soluções capazes de absorver a chuva e diminuir a necessidade de escoamento”, explica Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.

Isso é feito de três formas. A primeira ação é próxima às nascente, com a construção de muitos lagos para conter a água, como uma esponja. A segunda busca reduzir a velocidade do fluxo de água, por meio de um trajeto sinuoso com vegetação ou brejos nas margens – solução que também cria espaços verdes, parques e habitats para animais e remove toxinas e nutrientes poluentes da superfície da água. A terceira é o que é chamado de tanque, e direciona a água para um rio, lago ou para o mar.

Salvo pelos salgueiros e juncos

O criador deste conceito é Yu Kongjian, arquiteto e urbanista chinês, decano da Universidade de Pequim e fundador da empresa de urbanização e paisagismo Turenscape. Aos 10 anos, ele quase foi levado pelas águas de um riacho depois de uma forte chuva que inundou os campos de arroz. Foi salvo pelos bancos de salgueiros e juncos, que além de reduzirem o fluxo da água, serviram para que se agarrasse a eles e conseguisse sair.

O conceito também tem influência das antigas técnicas agrícolas, como o armazenamento de água da chuva em tanques para irrigar as plantações. Crítico do modelo de construções urbanas que considera “insustentável e que não se adapta ao clima das monções”, Yu defende uma filosofia de design urbano baseada nos conceitos tradicionais chineses.

O parque Qiaoyuan, em Tianjin, no nordeste da China, é considerado um exemplo dos princípios da cidade esponja na prática. Ele foi criado para recuperar uma área abandonada de 22 hectares, que estava se transformando em um deserto urbano.

As mudanças climáticas vêm causando cada vez mais chuvas intensas e inundações com severas consequências em várias partes do mundo. Com o aumento da temperatura, em decorrência do aquecimento global, um volume maior de umidade evapora na atmosfera e retorna em chuvas torrenciais. E a previsão é que este fenômeno se agrave ficando cada vez mais intenso.

No verão passado, as inundações causaram a morte de quase 400 pessoas na China e causaram perdas estimadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) em U$ 21,8 bilhões na economia do país. O governo chinês anunciou um plano para construir 16 projetos de cidade esponja e a meta de que as cidades reciclem no mínimo 70% da água da chuva até 2030.