ComputerWorld veicula artigo de Arie Halpern: “Não se combate o terrorismo instaurando a insegurança na internet”

ComputerWorld veicula artigo de Arie Halpern: “Não se combate o terrorismo instaurando a insegurança na internet”

Arie Halpern*

Poucas horas após o ataque de 3 de junho, em Londres, em que três jovens terroristas atropelaram e esfaquearam pessoas na London Bridge, causando sete mortes, a primeira-ministra britânica Theresa May convocou uma entrevista coletiva para apresentar a posição do governo em face da tragédia. Aproveitou-se da comoção e da estupefação diante dos acontecimentos para atacar, não apenas o extremismo, mas também a internet. Nas palavras de May, a internet não pode continuar sendo um “lugar seguro” para os terroristas se comunicarem on line.

A afirmação é a embalagem de uma série de proposições do partido conservador da primeira-ministra e cujo propósito é estabelecer o monitoramento da rede e criar mecanismos que permitam o acesso das autoridades ao conteúdo da comunicação entre as pessoas, incluindo as mensagens trocadas por aplicativos como Whatsapp. A proposta, se for levada adiante, representará um enorme retrocesso. Não se combate o terrorismo instaurando a insegurança na internet.

Em nome da segurança nacional e da prevenção de ações terroristas, o que pretendem os conservadores é deixar aberta a porta para a quebra o sigilo das comunicações que hoje é garantido por robustos sistemas de criptografia. A ideia, critica a revista “Wired”, se funda em uma ilusão: a de que a internet deve ser um território em que as pessoas do bem (good guys) possam ver o que estão fazendo as pessoas do mal (bad guys) para ameaçar a segurança da sociedade. “Posto em termos simples, se enfraquecermos o sistema de criptografia, tudo se tornará arriscado, desde os bancos até as viagens e a assistência à saúde”, diz a revista.

Quem poderá garantir ao cidadão que a vigilância estará sendo feita pelos bons e não pelos maus, essa é a questão. A resposta é: não há nenhuma garantia. Ou seja, em lugar de maior segurança, o que se terá é uma insegurança generalizada. A segurança no tráfego de dados é o pilar sobre o qual se assenta a internet.

A plataforma do partido de Theresa May em relação à internet não se restringe a questões de segurança nacional e prevenção de ações terroristas. Como informava reportagem do jornal “The Independent” quando ela ainda era apenas candidata, há a intenção de introduzir fortes mudanças no regime de funcionamento em que a internet trabalha. Nesse caso, sob a retórica moralista, de combate à pornografia, os conservadores querem instituir a censura e a vigilância sobre o que os cidadãos fazem ou deixam de fazer na internet. O que está em questão, quando se fala em censura na internet, é a liberdade, Não apenas no uso da internet, mas na vida do cidadão. A história já mostrou que esse enredo leva à criação de estados totalitários e policialescos. Não deveríamos reprisar esse filme.

*Este artigo foi publicado originalmente no portal ComputerWorld no dia 05 de julho


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *