Em vez de alimento para o estômago, alimentar bactérias para combater a desnutrição

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 149 milhões de crianças com menos de cinco anos no mundo sofrem de desnutrição e 45% das mortes nessa faixa etária são causadas por esse problema. A falta de alimento retarda o crescimento, prejudica o funcionamento do sistema imunológico e o sistema nervoso não se desenvolve adequadamente. O tratamento para combater a desnutrição, feito geralmente por organismos humanitários, usa suplementos alimentares. Mas a recuperação da saúde de crianças desnutridas raramente é permanente e muitas nunca se recuperam totalmente.

Um novo estudo indica outro tratamento promissor para combater a desnutrição. Em vez de alimento para o estômago, os cientistas descobriram que podem ter melhores resultados alimentando as bactérias intestinais.

Um suplemento desenvolvido especialmente para alimentar as bactérias mais importantes para o desenvolvimento registrou melhores resultados em termos de ganho de peso e crescimento quando comparado ao suplemento alimentar mais usado atualmente, embora tenha 20% menos calorias.

A receita da mistura batizada MDCF-2, que contém farinhas e óleos de grão de bico, banana, soja e amendoim foi resultado de um trabalho conjunto entre microbiologistas da Escola de Medicina da Washington University in St. Louis e especialistas em desnutrição do Centro Internacional de Pesquisa de Doenças Diarreicas de Dhaka, em Bangladesh.

Ao estudar o comportamento das bactérias intestinais, o microbioma, no processo de recuperação da desnutrição, eles identificaram 15 bactérias-chave para o crescimento. E observaram que as crianças cujos microbiomas não se desenvolvem de forma a incluir essas espécies não se recuperam da desnutrição, ao contrário daquelas que possuem essas bactérias intestinais. Segundo eles, mesmo com a administração de suplementos alimentares, o microbioma não se recupera.

MDCF-2: a receita para o crescimento

A partir dessa descoberta, eles pesquisaram entre alimentos comuns, fáceis de encontrar, quais mais estimulam o crescimento das bactérias essenciais para o crescimento. E, assim, chegaram à mistura MDCF-2.

Para testar sua eficácia, eles realizaram um teste com um grupo de 120 crianças desnutridas de uma favela de Dhaka, durante três meses. Parte delas recebeu MDCF-2 e outra parte o suplemento alimentar padrão. A cada duas semanas e um mês depois de concluído o tratamento, os pesquisadores pesaram e mediram as crianças, coletaram amostras de sangue e analisaram as bactérias em suas fezes.

As crianças que receberam o MDCF-2 cresceram duas vezes mais do que as tratadas com o suplemento padrão. E as amostras de sangue continham mais componentes relacionados ao crescimento, como as proteínas necessárias para o desenvolvimento adequado dos ossos, do sistema nervoso e do sistema imunológico.

Agora, os cientistas estão diante de um novo desafio. Como a mistura é feita com ingredientes frescos, seu transporte e armazenamento exigem alguns cuidados e o prazo de validade é menor, ao contrário do suplemento alimentar padrão, que pode ser armazenado por meses, especialmente em regiões pobres do mundo em que não há equipamentos para mantê-los refrigerados ou mesmo energia.

Além disso, é necessário ampliar a amostra, administrando e acompanhando o desenvolvimento de crianças em outras regiões do mundo e por um prazo maior para comprovar se os efeitos positivos se mantêm. “Segundo alguns especialistas, diferentes bactérias podem ser benéficas ou prejudiciais em diferentes estágios de desenvolvimento. Mesmo assim, a descoberta abre uma nova e importante perspectiva para combater um problema que afeta pessoas, famílias e o desenvolvimento econômico e social”, pondera Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.