Epicentro da guerra comercial entre Estados Unidos e China é a tecnologia digital

Nos últimos dias, os mercados financeiros passaram por uma série de turbulências. O Ibovespa, o índice da Bolsa de Valores do Estado de São Paulo, caiu 2,51% no último dia 5 de agosto, seguindo a tendência global, para se recuperar nos dias seguintes. O motivo, segundo os analistas, é bem claro: a guerra comercial entre Estados Unidos e China, que, no limite, pode provocar uma escalada de retaliações entre ambas as partes e levar a uma recessão global. Na última semana, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou uma sobretaxa de 10% sobre US$ 300 bilhões em importações chinesas, e a resposta dos asiáticos veio em seguida: desvalorizar sua moeda frente ao dólar e assim impulsionar ainda mais as exportações. Em cenários como esse, os investidores tendem a se refugiar em ativos mais seguros do que as ações listadas no mercado financeiro, e o resultado é este tipo de volatilidade.

Para além das análises pontuais, no entanto, o que se pode esperar em um horizonte longo de tempo é que os confrontos comerciais entre as duas maiores economias do planeta se intensifiquem. Há uma razão estrutural para isso: o novo papel da China como potente competidora internacional no mercado de produtos tecnológicos, que passam cada vez mais a fazer frente aos norte-americanos. Se em algum momento do passado a indústria chinesa estava concentrada em têxteis, plásticos, materiais elétricos ou eletrônicos de segunda linha, o cenário hoje é totalmente diferente, com uma competição de igual para igual com os produtos ocidentais de ponta.

A principal preocupação dos Estados Unidos é com relação à difusão da internet celular em banda ultrarrápida, o sistema 5G. Para se ter uma ideia, nos lugares onde ele já está operando, é possível baixar um filme de longa duração, em qualidade full HD, em apenas 1 segundo. As possibilidades de uma conexão desse porte são fantásticas, e, ao que tudo indica, os chineses têm nas mãos um sistema tremendamente competitivo para essa nova fase da rede.

Com alegadas preocupações de segurança, a administração Trump proibiu esta semana que todas as agências federais do país comprem equipamentos das chinesas Huawei, ZTE, Hytera e Hikvision, medida que vai entrar em vigor na terça-feira, dia 13 de agosto. O governo americano é o maior comprador mundial de tecnologia, e uma medida restritiva como essa pode causar prejuízos bilionários às competidoras asiáticas.

De qualquer forma, sobretaxas e proibições, como as que estão sendo postas em prática, apenas adiam um problema que os Estados Unidos, e também o ocidente, terão de enfrentar se quiserem se manter na vanguarda da inovação tecnológica mundial. A nação mais rica da Terra tem todas as condições de virar o jogo com o que tem de melhor: suas fantásticas universidades e centros de pesquisa, seu mercado interno constituído numa grande democracia, a valorização do empreendedorismo e da criatividade como tradição. E reforçar essas qualidades talvez seja uma melhor resposta em longo prazo à tecnologia asiática do que manter-se na defensiva com políticas de sobrepreços e proibições. 

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