Gêmeo digital da Terra e a disrupção na análise de fenômenos climáticos

A temperatura global vem registrando as mais altas marcas. Os últimos cinco anos foram os mais quentes da história. E fenômenos como chuvas em grande volume, secas, mudança no nível dos oceanos e incêndios, como os que vemos agora na Amazônia e na Califórnia, são cada vez mais intensos e frequentes.

O impacto disso na vida de todos nós é evidente e crescente, assim como a percepção da interconectividade entre as mudanças ambientais e o aparecimento ou agravamento de doenças, crises financeiras e problemas sociais.

Uma parte da humanidade, ciente da dimensão dos riscos, está mobilizada para ações capazes de conter, já que não há como reverter, a escalada desses fenômenos. Muitos governos, instituições multilaterais e empresas estão implantando iniciativas, formando alianças e modificando processos visando à sustentabilidade.

Pacotes de investimento para estimular a retomada econômica pós-covid-19 contemplam medidas que abrem caminho para a economia verde. E, no segmento financeiro, a bandeira do investimento comprometido com princípios ambientais, sociais e de governança, os chamados ESG, na sigla em inglês, vem se multiplicando. Outra frente é de empresários filantropos e empreendedores que estão investindo alguns milhões no desenvolvimento de novas tecnologias menos prejudiciais ao meio ambiente e à vida.

Na outra ponta dessa cadeia de inovação disruptiva, a União Europeia está à frente de um projeto que permitirá simular a atmosfera, os oceanos e a terra com precisão muito maior. Para se ter uma ideia, os modelos de análise climática mais potentes atualmente, como o europeu, funcionam numa resolução de nove quilômetros. O novo modelo, batizado “Destino Terra” (Destination Earh), terá resolução de um quilômetro.

Novo modelo permitirá monitorar a atividade humana

A criação desse “gêmeo digital” do planeta Terra, num modelo digital com capacidade de processamento exascale, aumentará significativamente a possibilidade de prever fenômenos como enchentes, secas e incêndios com até anos de antecedência. Segundo um artigo do especialista em ciência da revista Science, Paul Voosen, o novo modelo europeu também irá monitorar o comportamento humano, por meio de sinal de celulares, como o consumo de energia e padrões de deslocamento, permitindo verificar seus impactos no ambiente e na sociedade.

Num primeiro momento, os dados serão usados para a definição de políticas de sustentabilidade por parte dos governos. O acesso será gradualmente ampliado para a comunidade científica e para o setor privado. A previsão é implantá-lo num prazo entre 7 e 10 anos, a partir de 2021.

Com dados mais detalhados e captados em tempo real, será possível acompanhar de perto os níveis de poluição atmosférica, o comportamento das safras, a ocorrência e a dimensão de incêndios florestais e enchentes e usar essas informações para a formulação de políticas. Com o gêmeo digital da Terra, nossos líderes poderão prever os efeitos das mudanças climáticas na agricultura e, portanto, na nossa economia, assim como a efetividade das ações para limitar o desmatamento na Amazônia, por exemplo.