IA que detecta emoções: caminho ainda é longo e complexo

Empresas de tecnologia do mundo todo têm se esforçado para criar um sistema confiável de Inteligência Artificial (AI) que identifique as emoções humanas por meio da detecção das expressões do rosto. Com esse recurso, seria possível avaliar o grau de satisfação de clientes de grandes magazines, aferir a possibilidade de descontentamento ou agressividade em uma multidão e assim por diante. O aspecto ético dessa vigilância é objeto de debate entre os especialistas e a sociedade civil, e permanece em aberto. Mas uma questão importante tem sido levantada no campo técnico: seria possível com a percepção do rosto, um dia, de fato, estabelecer um algoritmo capaz de perceber as emoções?

Uma pesquisa apresentada por cientistas da Universidade Estadual de Ohio na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência, realizada em Seattle, no último fim de semana, indica que a resposta é negativa. Um estudo a respeito dos algoritmos disponíveis, com as últimas novidades na área, mostra que ainda há muito caminho a ser percorrido. Os estudiosos descobriram que as tentativas de detectar as emoções estavam quase sempre erradas.

O motivo é que os seres humanos adotam determinadas expressões em contextos sociais que são a resultante de interações culturalmente estabelecidas. Dito de outra maneira, nem sempre sorrimos quando estamos felizes, mas podemos sorrir como um sinal amigável para estabelecer uma relação de reciprocidade com uma pessoa que está nos atendendo ou ajudando, por exemplo. Por outro lado, mesmo em momentos de contentamento, não significa que faremos o movimento típico dos lábios para gerar um sorriso. Além disso, há diferenças culturais importantes, desde tradições nas quais é bem visto sorrir até outras nas quais o padrão mais aceitável é manter uma postura serena.

Para complicar ainda mais, o padrão do rosto que deve ser identificado pela máquina pode ser confundido por observadores humanos. Uma experiência foi feita com a exibição para uma série de pessoas de uma fotografia de um rosto, representando uma pessoa de boca aberta e olhos esbugalhados. A maior parte identificou aquela expressão como de fúria. Na verdade, quando a foto era mostrada inteira, percebia-se que era o detalhe de um jogador de futebol comemorando um gol. Sem o contexto e o restante da expressão corporal, a maior alegria foi confundida com violência por observadores humanos. Pobres máquinas.

 

Passo seguro atrás

Alguns entusiastas da tecnologia de detecção facial viam a possibilidade de identificar alunos em sala de aula que estão prestando mais atenção ou até mesmo desvendar crimes com o auxílio da IA equipada com um algoritmo como esse. De acordo com os pesquisadores da Universidade de Ohio, no entanto, essas tecnologias devem ser vistas com muitas ressalvas, inclusive sob o risco de se cometer graves injustiças, o que deveria nos fazer pensar duas vezes antes de adotá-las.

Com informações: Universidade Estadual de Ohio; Associação Americana para o Avanço da Ciência; Phys.