Inteligência artificial na música provoca debate

Inteligência artificial na música provoca debate

“Cérebro eletrônico faz tudo, faz quase tudo, mas ele é mudo”. Quem imaginaria, em 1969, quando Gilberto Gil gravou “Cérebro Eletrônico”, os rumos que a tecnologia tomaria na música? Quase 50 anos depois, chegamos ao ponto em que, sim, computadores estão compondo. Na última semana, foi lançado o primeiro álbum feito com inteligência artificial. “Hello World” possui 15 faixas, todas criadas pelo Flow Machines, o mesmo software que produziu “Daddy’ Car”, primeira música completamente desenvolvida por máquinas.  Em terras brasileiras, a empresa Kunumi realizou o primeiro rap feito por máquinas: “Neural”. A presença da inteligência artificial na música provoca debate. Tais novidades desafiam a ideia de que a única atividade que os robôs não poderiam fazer é a arte. A inteligência artificial não deverá ocupar o lugar do músico no futuro, pois a inspiração é só para humanos, afirma Arie Halpern. “Mas tecnologia é, sim, um recurso que veio para ficar nas artes”, afirma o economista e empreendedor com foco em inovação e tecnologias disruptivas.

Há convivência da tecnologia eletrônica com a música vem de longa data. No começo da década de 1980, aparelhos eletrônicos ganhavam personalidade nas melodias. Grupos como Depeche Mode, New Order, Duran Duran e Kiss colocaram os recursos digitais na rota da música pop, de onde nunca mais sairiam. Criador dos sintetizadores, Ray Kurzweil foi personagem importante neste período e, atualmente, segue “abalando” as estruturas da indústria musical.

Kurzweil é hoje diretor de engenharia do Google e responsável pelas ações do Google Brain, que tem como um de seus braços o Neural Synthesizer, ou NSynth, uma plataforma que cria música com a ajuda de inteligência artificial. A novidade será apresentada no festival de tecnologia e artes em Durham, Estados Unidos, durante essa semana. A ideia da empresa é conceder a artistas “a capacidade de explorar novos sons que seriam difíceis ou impossíveis de serem produzidos com um sintetizador normal”.

Cientistas criam instrumento que pode ser tocado com a força do pensamento

Durante o South By Southwest, evento realizado em Austin (EUA) sobre inovações tecnológicas e artes, Kurzweil profetizou sobre o rumo da criação artística. “Em 2029, computadores terão inteligência em nível humano. Ainda é um cenário futuro, mas eles irão nos expandir”, afirma ele, explicando que os computadores entrarão, literalmente, em nossos cérebros e nos deixarão conectados por meio de uma nuvem.

O Google não é a única empresa a investir em máquinas para criar arte. Enquanto o NSynth é capaz de criar sons e melodias únicas, o programa de inteligência artificial da IBM, o Watson, faz as vezes de compositor. O robô criou em parceria com o premiado produtor Alex Da Kid o hit “Not Easy”. O “processo de composição” de Watson foi analisar cinco anos de textos e artigos do New York Times, as principais decisões da Suprema Corte dos EUA, os artigos mais editados da Wikipedia, sinopses de filmes lançados, além de blogs e tuítes. Com esta bagagem cultural, o robô filtrou o que havia de mais relevante na cultura popular e a forma como as pessoas poderiam reagir. Além disso, ele também fez a análise de letras de milhares de músicas e das suas progressões de acordes para, então, criar uma impressão digital da música.

Bob Dylan, um dos principais compositores da história da música moderna e vencedor do Prêmio Nobel em 2017 por sua obra apareceu em um comercial com o Watson e deixou o mundo curioso sobre a parceria. Ainda que o computador desenvolvido pela IBM possa criar letras completas e com sentido comercial, composições que nos arrebatam pela poesia é algo ainda alcançado somente por poucos humanos, como Dylan.


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