Maior equipamento da ciência brasileira entra na batalha contra covid-19

Um gigante com meio quilômetro de extensão, capaz de fazer com que feixes controlados de elétrons percorram o circuito nada menos do que 600 mil vezes por segundo, dispondo de ímãs superpoderosos que direcionam os fluxos e de equipamentos sensíveis o suficiente para detectar a luz num diâmetro 30 vezes menor do que um fio de cabelo. Essas são algumas das características do Sirius, um orgulho da ciência brasileira, que começou a ser construído em 2014 e foi inaugurado em 2018, em Campinas, no interior de São Paulo, com um custo de R$ 1,5 bilhão. Ele figura, ao lado de um laboratório montado na Suécia, entre os dois únicos superlaboratórios de luz síncrona de 4ª geração no mundo.

E, se, por vezes, entre os leigos há dúvidas a respeito da utilidade de um investimento público dessa magnitude em ciência pura, sua utilidade prática acaba de ser demonstrada, quando foi anunciado que o equipamento obteve imagens de uma proteína fundamental para o processo de reprodução e contaminação da covid-19. O nível de detalhamento obtido deve ajudar os cientistas a compreender como o vírus se comporta dentro das células humanas e abrir o campo para tratamentos e vacinas preventivas. A partir desta semana, os biólogos e imunologistas já vão poder contar com a parceria dos físicos do acelerador de partículas para lidar com suas pesquisas práticas.

“O processo de desenvolvimento de algo tão importante como um tratamento efetivo para essa pandemia é o resultado da colaboração de diversas áreas de conhecimento, que vão num primeiro momento investigar as hipóteses, para, em seguida, testá-las e, finalmente, obter um produto que pode ser replicado e levado até as pessoas que precisam”, explica o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern. Para Halpern, contar com um equipamento como o Sirius, que está na ponta do desenvolvimento de novas tecnologias em nível global no combate ao novo coronavírus é uma excelente notícia: “A ciência brasileira tem talentos e dedicação, e, se for bem administrada e financiada, tende a dar ótimos resultados que beneficiam toda a sociedade”, completa.

Manacá

As linhas de pesquisa desenvolvidas pelos cientistas que trabalham com o equipamento receberam nomes bem brasileiros. A primeira a ficar estruturada e que está ajudando na identificação das características da covid-19 é a Manacá. Há uma grande expectativa para os próximos meses, quando deve estrear a linha Cateretê, que poderia ajudar a identificar pela primeira vez no mundo todos os processos biológicos que ocorrem dentro de uma célula de uma única vez.

Com informações: CNPEM; Laboratório Nacional de Luz Síncrona; MAX-IV; EPTV.