Medicina bioeletrônica no tratamento de doenças crônicas

A convergência dos avanços na bioengenharia e na neurologia levou ao desenvolvimento de um novo tratamento para doenças crônicas, a chamada medicina bioeletrônica. Ela utiliza dispositivos implantáveis miniaturizados que usam a corrente elétrica para estimular o sistema nervoso e aliviar os sintomas ou, às vezes, as causas de doenças crônicas.

Com eles, é possível usar a terapia de neuromodulação, que combina tecnologia e neurociência para estimular nervos periféricos. Os dispositivos controlam o disparo das células nervosas por meio de correntes elétricas, conhecidas como neuroestimulação. 

A tecnologia é usada em tratamentos para doenças que envolvem o sistema nervoso. Por exemplo, os implantes cocleares podem melhorar a audição em pacientes com deficiência auditiva, e os sintomas motores da doença de Parkinson às vezes podem ser tratados ativando eletricamente neurônios em áreas profundas do cérebro. Com os avanços da tecnologia computacional, esses dispositivos estão se tornando mais sofisticados e novas indicações de doenças estão surgindo.

A principal vantagem é proporcionar tratamento preciso, já que os medicamentos tomados por via oral entram na circulação e são absorvidos por quase todas as células do corpo, e, eventualmente chegam ao alvo pretendido em doses pequenas, o que diminui a eficácia e aumenta as chances de efeitos colaterais. 

Muitas empresas desenvolveram dispositivos implantáveis ​​e não invasivos que agem nos nervos relacionados a diversas doenças. A americana Cala Health desenvolveu uma terapia para tratar o tremor essencial e trabalha em outros dispositivos para tratamentos de doenças neurológicas, cardiológicas e psiquiátricas. A electroCore possui uma terapia não invasiva que atua no nervo vago (nVNS), localizado no pescoço, prevenindo crises de enxaqueca. E a Tivic Health Systems desenvolveu um dispositivo bioeletrônico que usa tecnologia de microcorrente avançada  para tratar a dor nos seios da face relacionada à alergia, ou sinusite.

Novos investimentos

Embora os primeiros passos nesta área tenham começado há duas décadas, havia pouco testes clínicos e pouco investimento nesta área. A atenção e o interesse por inovações disruptivas no setor de saúde, com a eclosão da pandemia da Covid-19, podem ser os motivadores por trás de uma série de investimentos em novas terapias. 

Assim, recentemente, a italiana WISE recebeu recursos para o desenvolvimento de um dispositivo que bloqueia os sinais de dor crônica na medula espinhal, ativando eletricamente células nervosas e a belga Nyxoah, de um implante para tratar a apnéia do sono por meio da eletrificação de células nervosas sob a língua.

Alpem disto, no Hospital Geral de Massachusetts, os pesquisadores estão trabalhando em maneiras de ativar os nervos nos olhos para restaurar a visão em pessoas com doença da retina, enquanto os cientistas do Johns Hopkins estão convencidos de que manipular sinais elétricos no cérebro da maneira correta pode resolver as condições da depressão a demência.

“Conforme a bioeletrônica avançar com pesquisas e investimentos, estes dispositivos se tornarão mais eficazes e capazes de tratar doenças crônicas ainda mais complexas”, prevê Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.