Micróbios e outros seres vivos podem nutrir plantações evitando a poluição do solo e da água

Os fertilizantes sintéticos possibilitaram melhorar a produtividade no cultivo de alimentos. Ao longo de décadas, os compostos químicos passaram a suprir os vegetais com substâncias necessárias ao seu crescimento. E são essenciais para o aumento da produção de alimentos para bilhões de pessoas.

Produzidos a partir de combustíveis fósseis, eles também causam significativo impacto ambiental, especialmente a poluição do solo e de recursos hídricos. A produção de fertilizantes a partir de combustíveis fósseis é responsável por 20% das emissões globais do agronegócio, segundo relatório da agência Food & Environment Reporting Network – FERN. Sua produção consome ainda grande quantidade de energia.

Empresas e startups, algumas delas com incentivo de gigantes do agro, estão usando novas tecnologias para desenvolver produtos agrícolas usando seres vivos, como micróbios e algas marinhas, para nutrir as plantações e diminuir a necessidade de fertilizantes sintéticos.

Micróbios, incluindo fungos e vírus, são usados há décadas para proteger as plantas de insetos e doenças. Agora, cientistas e pesquisadores estão estudando outras aplicações, usando-os como alternativa natural para nutrir as culturas e melhorar seus níveis de produção.

A startup americana Kula Bio desenvolveu um fertilizante que usa micróbios no lugar de combustíveis fósseis, com o objetivo de dar às plantas o nitrogênio que precisam para crescer rapidamente. A Companhia desenvolveu um processo que aumenta a vida das bactérias, de algumas horas para cerca de duas semanas, para que possam capturar muito mais nitrogênio para a lavoura.

A empresa cultiva os micróbios em um biorreator, alimentando-os com uma mistura nutricional, e após algum tempo retira a alimentação. Sem comida, eles passam a armazenar energia obtida a partir de carbono, hidrogênio e oxigênio em sua estrutura celular. Isso é o que faz com que durem mais.

A mistura é pulverizada nas plantações da mesma forma que o fertilizante sintético. No processo tradicional, o agricultor pulveriza uma quantidade de uma só vez, porém as plantas não podem absorver tudo. E é este excedente que pode escorrer pelo solo e chegar aos córregos e rios. No caso, dos micróbios, eles produzem nitrogênio sob demanda. À medida em que há falta de nitrogênio no solo ao seu redor, o mecanismo para fixá-lo entra em ação. Os micróbios ainda capturam carbono, que permanece no solo, contribuindo com a redução da pegada de carbono.

No Brasil, a Microquimica Tradecorp possui um produto de base orgânica, fabricado a partir de um processo de fermentação biológica do melaço de cana-de-açúcar como substrato. O produto final não contém bactérias vivas, o que garante maior vida útil e estabilidade. A combinação de mais de 200 ingredientes bioativos faz com que o produto apresente alta eficácia mesmo quando aplicado em doses muito baixas (de 10 a 40 vezes menores que os bioestimulantes tradicionais).

Com os biofertilizantes, o agro pode diminuir a aplicação de nitrogênio, que polui os cursos d’água e geram óxido nitroso, especialmente em um momento em que as emissões agrícolas enfrentam maior escrutínio.

Os investimentos globais em bioestimulantes e produtos de controle de cultivos mais que dobraram em 2021 em relação ao ano anterior, chegando a US$ 777 milhões, de acordo com dados da empresa de análise de capital de risco AgFunder. A estimativa, segundo o banco de investimentos Rabobank, é de que essa indústria deve crescer entre 12% e 15% por ano até 2026.

Mais recentemente, os biofertilizantes ganharam impulso também como alternativa aos fertilizantes químicos, devido à redução na oferta de matéria-prima. “O aumento no custo dos fertilizantes e a limitação da oferta certamente darão um impulso adicional ao desenvolvimento e uso dos biofertilizantes em todo o mundo”, prevê Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.