Navios autônomos prometem conquistar os sete mares

Enquanto seguem aceleradas as pesquisas a respeito dos drones aéreos e dos carros dirigidos por computadores, a tecnologia de transporte não tripulado agora chega também aos oceanos. A empresa Sea-Kit, baseada em Essex, no Reino Unido, acaba de realizar uma missão que comprovou a viabilidade da navegação remota, e de uma maneira bastante inusitada, com um toque do peculiar humor britânico: a primeira encomenda internacional, saindo da Inglaterra com destino à Bélgica, foi uma caixa com cinco quilos de ostras frescas. Os moluscos foram entregues por uma embarcação de casco de alumínio de 12 metros (39 pés), que atravessou o Canal da Mancha sem nenhum tripulante a bordo. O navio foi controlado remotamente a partir de uma sala confortável em terra firme.

O barco havia sido anteriormente designado para funções científicas de mapeamento dos oceanos, mas a empresa o adaptou para fins comerciais, e espera que haverá no futuro uma grande demanda por esse tipo de tecnologia. A embarcação pode permanecer no mar por 200 dias e tem uma autonomia de 20 mil km. Ela tem como um de seus principais equipamentos um submarido destacável, que pode ser expelido e realizar missões de reconhecimento até ser novamente incorporado ao corpo principal da nave.

As vantagens listadas pela Sea-Kit são muitas. Em primeiro lugar, claro, estão os custos de operação. Marter uma tripulação – um time altamente qualificado quando se trata de viagens internacionais em mar aberto – é um componente fundamental na oneração do comércio marítimo. Mas não só isso. Quando o elemento humano embarcado é dispensado, isso altera a própria engenharia da nave, permitindo que os projetistas dispensem todas as áreas de cabines e de banheiros, de armazenamento de suprimentos, de painéis de controle, enfim, todos os componentes que são necessários para que um grupo de pessoas possa viver e trabalhar de forma autônoma por longos períodos. Com essas facilidades, os engenheiros conseguiram projetar um calado (a parte do navio que fica submersa) mais baixo, além de uma estrutura mais estreita, que faz com que ele seja facilmente manobrável e possa entrar em portos menores, aumentando sua eficiência.

“Quando os engenheiros conseguem projetar uma tecnologia confiável de navegação como essa, é como se acontecesse um efeito em cascata: a inovação leva a outras possibilidades e as pesquisas acabam por encontrar o melhor caminho para otimizar todo um conjunto a partir do desenvolvimento inicial”, comenta o especialista em tecnologia Arie Halpern.

Piratas à vista

Para o ano que vem está planejada uma viagem muito mais longa, atravessando o Oceano Atlântico até a costa leste dos Estados Unidos. A preocupação da equipe do Sea-Kit, no entanto, por incrível que possa parecer, não está em algum impedimento tecnológico, como uma falha prolongada de comunicação, por exemplo. Está em ataques de piratas. Mesmo que ao evocar seu nome possamos pensar nos bandidos que foram romantizados pelos livros de aventura e pelo cinema, nos dias atuais eles continuam a existir e são muito perigosos, causando enormes prejuízos para a navegação internacional. No caso de um navio sem tripulantes, não há risco de perdas humanas, no entanto, ele seria uma presa fácil para pessoas mal intencionadas que soubessem de sua rota. 

A gravidade do problema da pirataria cresce na medida em que os ataques ficam mais sofisticados. As empresas de navegação começam, mesmo que tardiamente, a se preocupar com segurança de dados, já que estão constatando que os bandidos conhecem com antecedência o valor e o destino das cargas, e que até então as informações dos navios eram absurdamente vulneráveis. Além de proteger melhor as informações, estão buscando se preparar para a eventualidade de abordagens em situações em que a ameaça não está clara, utilizando equipamentos preventivos não letais. Empresas como a também britânica BCB International estão desenvolvendo tecnologias de defesa desse tipo, como a Barracuda, um equipamento capaz de parar um barco por meio de um cabo lançado a longa distância até que se possa averiguar as intenções da aproximação suspeita.