Nova abordagem da neurociência estuda impacto da música no cérebro

Nunca houve uma sociedade humana que não tivesse apresentado uma forma de expressão musical. Os ritmos, melodias e harmonias são tão integrados à evolução da espécie que modificaram a nossa estrutura cerebral. O chamado giro de Heschl, onde a informação musical é processada, constitui 8% da estrutura total do córtex. Ali ocorre uma “tempestade” de informações quando pensamos sobre música, mesmo sem ouvi-la. Hoje se sabe disso com a ajuda de equipamentos de ressonância magnética, mas já era possível intuir que a inteligência musical não depende da faculdade física de audição desde que Ludwig Van Beethoven compôs, completamente surdo, sua Nona Sinfonia, uma das obras mais aclamadas de todos os tempos.

A atividade cerebral muito intensa, associada a uma atividade abstrata, intriga há muitas décadas os neurocientistas, que buscam mapear de forma mais efetiva essa relação de causa e efeito. Um estudo de pesquisadores da USC Dornsife College of Letters, Arts and Sciences em associação com a USC Viterbi School of Engineering (ambas vinculadas à Universidade do Sul da Califórnia) está buscando uma resposta mais efetiva a essa questão com a ajuda de Inteligência Artificial (AI).

Para o experimento, a equipe selecionou três peças sem letras e que não eram muito difundidas, de forma a evitar que sua execução fosse associada a experiências anteriores (positivas ou negativas) dos ouvintes. No experimento de neuroimagem, 40 voluntários ouviram uma série de trechos enquanto seus cérebros eram escaneados por ressonância magnética. Para completar, 60 pessoas tiveram a atividade cardíaca e a condutância da pele avaliadas durante a audição. O mesmo grupo também avaliou a intensidade da emoção, feliz ou triste, atribuindo notas de um a dez, enquanto ouvia a música. Em seguida, os cientistas da computação analisaram os dados usando algoritmos de inteligência artificial. No passado, os neurocientistas que tentavam entender melhor o impacto da música analisavam exames de ressonância magnética por segmentos muito curtos, de dois segundos de música. Agora, os cientistas puderam observar como as pessoas se sentiam enquanto ouviam música por períodos mais longos, não apenas em exames cerebrais, mas também usando outros modelos de captação de dados.

 

Funções práticas

“O conhecimento sobre como a música afeta as emoções e inspira a atividade cerebral não é apenas uma curiosidade, mas pode ter efeitos práticos excelentes numa série de terapias que melhoram a qualidade de vida das pessoas”, diz o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern. “Esse é mais um exemplo de como as aplicações em AI estão revolucionando diversos ramos do conhecimento”, completa. Além de ajudar os pesquisadores a identificar músicas para o treino perfeito na academia, estudar ou dormir, a pesquisa tem aplicações terapêuticas. A música demonstrou ser influente para acalmar a ansiedade, aliviar a dor e ajudar as pessoas com necessidades especiais.

Com informações: Medical Express; Cochlea; USC Dornsife College; USC Viterbi School of Engineering.