Novas tecnologias para combater as causas e consequências da crise hídrica

Estamos novamente diante de uma crise hídrica que ameaça o fornecimento de energia, a produção agrícola e a atividade econômica como um todo. Os efeitos se estendem ainda à saúde e à qualidade de vida das pessoas e aos ecossistemas. A princípio, a causa é atribuída à maior escassez de chuvas em quase um século. Mas não só. As crises hídricas têm origens bastante complexas. Em geral, decorrem da escassez de recursos provocada por eventos climáticos, falta de infraestrutura, aumento na demanda (e do desperdício), poluição de rios, lagos, mananciais e reservatórios.

Desde a última crise hídrica severa no País, em 2001, quando, por exemplo, o sistema Cantareira, que abastece quase a metade da região metropolitana de São Paulo, chegou a 12% de seu volume útil, novas tecnologias passaram a ser usadas para contornar causas e efeitos e mitigar consequências. “Medidas que vão desde a educação e a conscientização sobre a importância da água para evitar o desperdício até novas tecnologias para o reaproveitamento, conservação e maior eficiência no uso vêm se multiplicando para evitar uma situação limite que ameaça nossa própria sobrevivência”, observa o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern.  

A enorme quantidade de informações disponíveis atualmente serve de base para modelos de previsão do tempo cada vez mais assertivos. As estações de coleta de dados climatológicos geram insumos para otimizar a operação de reservatórios e ajudam na tomada de decisão e adoção de medidas preventivas. Também é maior a qualidade e quantidade de imagens de satélite que permitem o acompanhamento de dados de chuva, nível e vazão.

Um exemplo de tecnologia para o monitoramento e gestão é o Monitor de Secas do Nordeste, uma ferramenta que permite a visualização de informações georreferenciadas sobre as secas e que pode ser acessada pela população por meio de um aplicativo para smartphones.

O monitor usa dados climatológicos e hidrológicos, entre outros, fornecidos por órgãos federais, estaduais e instituições de apoio para a geração de indicadores georreferenciados sobre as secas. Os dados são usados por instituições e indivíduos para que possam tomar decisões mais acuradas e adotar ações para minimizar os efeitos.

Dessalinização por osmose reversa

Uma das soluções adotadas para o controle de consumo da água na irrigação, por exemplo, são os sistemas de tubos gotejadores. Usando emissores artesanais, feitos com materiais comuns, como pedaços de tubos, mangueiras ou garrafas PET, eles gotejam água continuamente direto no solo, tornando a irrigação mais eficiente com o uso de menos volume de água.

Nesse período, o País adotou também tecnologias como a dessalinização por osmose reversa. Com custo menor do que as tecnologias térmicas, mais tradicionais, o sistema é usado para abastecer o arquipélago de Fernando de Noronha e cerca de 40 cidades no Ceará.

Novas tecnologias foram criadas também para o tratamento de esgoto, que mitiga a contaminação de mananciais em áreas urbanas. O lançamento de esgoto sem tratamento afeta a qualidade da água, tornando mais caro o processo ou até mesmo inviabilizando seu aproveitamento. Em Petrópolis, no Rio de Janeiro, um sistema utiliza biodigestores, câmaras sem luz e oxigênio, em que bactérias obtidas em restos de matéria vegetal digerem a matéria orgânica, produzindo biogás, que é usado na geração de energia elétrica.

Além do monitoramento de dados, recursos para uso mais eficiente e tratamento para o reaproveitamento, o País desenvolveu também tecnologias para reduzir perdas com vazamentos nas extensas redes de distribuição de água, que, em algumas regiões, chegam a um terço do volume de água tratada. O uso de inteligência artificial (IA) em um banco de dados com informações coletadas por braceletes colocados em hidrômetros ou tubulações, que captam as vibrações do fluxo pressurizado, possibilita identificar vazamento na rede.

Outra técnica de monitoramento de redes desenvolvida usa robôs dotados com câmeras que são inseridos em dutos de esgoto, água e ar-condicionado para captar imagens das tubulações e assim detectar problemas que causam o desperdício de água. Os recursos e soluções se multiplicam para que não falte um recurso tão abundante e fundamental à vida.