Novas vacinas podem criar anticorpos para vírus que ainda não evoluíram (mas se desenvolverão)

Nosso sistema imunológico, geralmente, reage a organismos como vírus e bactérias que já infectaram nosso organismo. Cientistas estão desenvolvendo processos para que o sistema imunológico crie anticorpos para vírus e bactérias antes mesmo que eles causem a infecção.

Mesmo com todo o empenho no combate à covid-19, que resultou na criação de vacinas em tempo recorde e na imunizado de milhões de pessoas que ainda não tinham o vírus, o processo só começou depois que muitas pessoas já haviam contraído a doença e milhares haviam morrido. Ou seja, quando o vírus já estava disseminado.

Assim como a vacinação consegue ativar o sistema imunológico de pessoas que ainda não foram infectadas, novas tecnologias estão no caminho para criar imunização contra patógenos que ainda não evoluíram, mas que têm grande probabilidade de se desenvolver no futuro.

A combinação de tecnologias de sequenciamento de DNA e aprendizado de máquina possibilita detectar não apenas as variantes de um vírus que já estão em circulação, mas também prever como elas podem mudar. É o que está fazendo uma equipe de virologistas do Fred Hutchinson Cancer Research Center, de Seattle. Eles estão cultivando variantes da proteína spike do coronavírus para identificar quais mutações podem se desenvolver. Com a técnica, chamada deep mutational scanning, no ano passado eles conseguiram detectar uma mutação do vírus. Alguns meses depois, essa mutação se tornou real, foi a variante batizada Alpha.

Combinação de dados experimentais e modelos computacionais

Outra equipe, formada por pesquisadores da empresa Flagship Labs 77, com sede em Boston, estão trabalhando na combinação de dados experimentais, como os que estão sendo feitos pelo Fred Hutchinson Cancer Research Center, com modelos computacionais para prever a evolução dos vírus. Isso possibilitaria desenvolver vacinas preventivamente.

A Flagship Labs 77 (fl77) é uma das empresas da incubadora de biotecnologia flagship pioneering. Ecossistema do qual também faz parte a Moderna, laboratório que criou a primeira vacina com a tecnologia de RNA mensageiro acelerando a produção de vacinas contra o coronavírus.

O processo é similar ao que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já faz para acompanhar a evolução dos vírus da gripe. O Sistema Global de Vigilância e Resposta à Gripe monitora os vírus que estão circulando no hemisfério sul, durante o inverno, detectando as cepas que têm potencial para se desenvolver atingindo o hemisfério norte com a chegada do inverno.

Os pesquisadores do fl77 acreditam que estamos próximos de poder criar vacinas para organismos que ainda nem estejam circulando. “A possibilidade de prever quais mutações poderão vencer os anticorpos já criados é muito promissora, pois permitirá nos antecipar a eles, desenvolvendo vacinas antes que ocorra a infecção e salvando milhões de vidas”, diz o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern.

Nenhum programa será capaz de prever a evolução de uma ampla gama de patógenos que podem infectar seres humanos, reforça Arie Halpern, mas, se pudermos prever o surgimento de alguns que representem uma ameaça, já teremos benefícios suficientes.