O futuro de volta ao passado

As cidades e as construções foram ao longo da história influenciadas pela ocorrência de doenças, principalmente as epidemias, assim como pela economia, pelas guerras, por conquistas sociais e grandes catástrofes. A cólera no século XIX, por exemplo, levou à construção das redes de esgoto demandando o alargamento de ruas e estradas, assim como as leis de zoneamento se preocupam em evitar superlotação.

O modernismo foi em parte influenciado pela tuberculose, incorporando a estética limpa e iluminada dos sanatórios. E, agora, estamos diante de um novo vírus e da pandemia que já está provocando transformações não só na rotina de todos, mas também nos espaços em que vivemos e trabalhamos.

Ao que tudo indica, a tendência de viver em espaços privados menores seguindo um conceito mais próximo do funcional e com áreas comuns para o lazer que vinha se consolidando nas últimas décadas começa a ser reverter. Com o isolamento social imposto pela pandemia da covid-19, aumentou a procura por casas e apartamentos maiores e em locais mais afastados.

As casas começam a ser adaptadas para acomodar melhor os espaços de trabalho num movimento que deve se acentuar. Talvez em alguns lugares seja necessário alargar calçadas para evitar aglomerações. No que diz respeito aos ambientes de trabalho, a dúvida é se estamos diante do fim dos tão populares espaços abertos, das fachadas cujas janelas estão permanentemente fechadas. E os espaços de co-working, que se multiplicaram nos anos recentes, continuarão existindo? Vamos voltar a trabalhar em cubículos individuais, como na década de 1950?

O foco agora é pensar sobre como materiais, revestimentos e o design das construções podem contribuir para limitar a disseminação de vírus, evitando futuras pandemias. Na arquitetura, estruturas temporárias como os hospitais de campanha erguidos em poucos dias, em vários países, logo no começo do surto do novo coronavírus, antes usadas em situações muito extremas como as guerras, devem se tornar mais comuns e ajudar a criar materiais capazes de tornar ainda mais flexíveis e modulares o interior dos edifícios para que se adequem a diferentes formatos de uso.

Outra frente que se abre é o desenvolvimento de tecidos contendo substâncias antivirais dentro das próprias fibras que, além de usados em roupas, podem também revestir assentos nos transportes e locais públicos.

Nos espaços públicos estão surgindo novas propostas, considerando as atuais limitações, como o parque urbano Parc de la Distance. Inspirado nos jardins franceses e japoneses, ele possui caminhos paralelos em percursos labirínticos, cada um com portões de entrada e saída independentes para que as pessoas não se aproximem umas das outras. O desenho é muito similar aos jardins de cerca viva em forma de labirintos, do século XVI.

Os ciclos da história dão a sensação de que avançamos para o futuro ao mesmo tempo em que voltamos ao passado. A diferença é que a volta ao passado se dá num contexto mais conceitual e que, graças às novas tecnologias, as soluções são direcionadas para propósitos melhorando nossa qualidade de vida.