O novo desafio das cidades inteligentes

Uma das muitas constatações trazidas pelo surto do novo coronavírus é que as cidades modernas, nas quais habitamos, não foram construídas para fazer frente a uma pandemia. Neste século, já passamos pelos surtos de Sars, Mers, Ebola, H1N1 e, agora, a Covid-19. Se, como parece, entramos numa era de pandemias, as cidades, assim como a economia e as relações de trabalho, terão de passar por grandes transformações.

No início do século XIX, após surtos epidêmicos de doenças como tuberculose, tifo e varíola, surgiu o chamado movimento higienista, estabelecendo padrões e medidas baseadas em aspectos de saúde. Foi a origem dos sistemas de saneamento e até padrões de ventilação e iluminação natural de ambientes fechados. O planejamento de nossas cidades sempre refletiu tendências culturais e tecnológicas predominantes e muitas das soluções urbanísticas nasceram em resposta a crises sanitárias.

Já avançamos muito, mas a necessidade de inserir aspectos de saúde e bem-estar nas cidades é contínua. Como centros de comércio e negócios, densamente povoadas, com elevada mobilidade e totalmente conectadas, as cidades representam um enorme risco para a transmissão de doenças. Como fazer, por exemplo, com que a circulação em áreas abertas se mantenha segura para que as ruas, praças e parques não se transformem em zonas proibidas numa pandemia?

 

A reinvenção das cidades

Soluções que permitam adaptações rápidas em moradias e sistemas de transporte deverão ser a regra. Um exemplo na atual pandemia foi a construção do hospital Wuhan Volcan, com capacidade para 1.000 leitos. A construção, com estruturas metálicas pré-fabricadas, criadas após a Segunda Guerra Mundial, no esforço de reconstrução da Europa, não usou novas tecnologias, mas foi feita em tempo recorde. A capacidade para erguer rapidamente estruturas temporárias, capazes de abrigar milhares de pessoas, doentes ou sadias, será fundamental. Mas é preciso ir além, criando alternativas de transporte e distribuição de produtos essenciais, como comida e suprimentos médicos. Como nós, as cidades terão de se reinventar nas crises.

 

A tecnologia sempre teve impacto no desenvolvimento das cidades e continuarão a ter. As plataformas digitais coletam a localização geográfica, hábitos e preferências das pessoas. Com esses dados, as dimensões até então invisíveis da vida urbana se tornaram visíveis e podem ser usadas para o planejamento das cidades. Para isso, é preciso que as informações hoje geralmente consolidadas em nível nacional sejam mais segmentadas, pois, numa pandemia, a maioria das decisões para contê-la precisa ser tomada localmente.

 

Ao que tudo indica, a pandemia da Covid-19 acrescentou um novo e complexo desafio ao conceito de cidades inteligentes.