Para Arie Halpern, a IA provoca sucessivas ondas de disruptura

Para Arie Halpern, a IA é responsável por diversas disrupturas.

Para Arie Halpern, a IA é responsável por diversas disrupturas.

O drama que cerca a relação entre o criador e a criatura é de dimensões mitológicas. Ele está presente nas narrativas religiosas, na literatura, nos contos infantis e quase invariavelmente diz respeito ao temor de que a criatura ganhe vida e passe a ter vontade própria. Nesse universo, estão, além dos mitos sobre a criação do homem, histórias clássicas como Pinóquio, Golem, Frankenstein, o Médico e o Monstro. A versão moderna do mito foi apresentada de forma magistral no filme “2001, A Odisséia no Espaço”, de Stanley Kubrick, no qual o computador Hal tenta se livrar da tripulação da nave Discovery para impor sua vontade. Inquietação da mesma natureza ronda os experimentos atuais com a inteligência artificial (IA), tecnologia que avança em diversas frentes e deve provocar sucessivas ondas de disruptura.

“A inteligência artificial vai mudar a forma com que produzimos, fabricamos, consumimos e entregamos produtos”, diz Arie Halpern, economista e empreendedor com foco em inovação e tecnologias disruptivas. “Teremos robôs que nos ajudam em tarefas domésticas, computadores capazes de escrever livros e roteiros, máquinas que analisam enormes quantidades de dados e robôs-enfermeiros para cuidar da nossa saúde.”

Segundo o Arie Halper, a IA deverá mudar a nossa forma de viver, a relação com o trabalho, com o meio, entre os humanos, entre os humanos e as máquinas e entre as próprias máquinas. Teremos robôs realizando tarefas domésticas, cuidando de nossa saúde, teremos carros sem motorista, eletrodomésticos que falam e interagem conosco. E, no topo da pirâmide social dos robôs, máquinas capazes de realizar tarefas sem que tenham recebido instruções para tanto – ou seja, capazes de tomar decisões com base em sua própria “experiência”, em seus próprios erros.

Na fase atual, nos divertimos com máquinas que mimetizam o comportamento humano. Elas são alimentadas com uma enormidade de dados, têm grande capacidade de processamento e algoritmos que simulam o nosso modo de analisar tudo isso. Algumas também são capazes, como os humanos, de fazer coisas pouco inteligentes – por exemplo, com base em sua navegação na internet, oferecer persistentemente produtos que você pesquisou um dia e nos quais não está mais interessado ou que já comprou. Na linha do mimetismo entram as respostas espirituosas que o sistema de comandos por voz do iPhone devolve quando você lhe dirige um palavrão. Os mecanismos de busca do Google e os sistemas de reconhecimento de pessoas em fotos também se inscrevem no campo de desenvolvimento da IA. Os robôs que vêm sucessivamente derrotando enxadristas e mestres em Go, são exibidos como exemplos da possível superioridade das máquinas sobre a “inteligência natural”.

Os carros autônomos são a sensação no mundo do transporte. Eles estão circulando experimentalmente pelas ruas e não deixam dúvida de que um carro inteligente pode, sem a intervenção de um motorista humano, levar o passageiro ao seu destino com base em seu sistema de decisões. Ele analisa informações captadas por seus sensores, identifica o movimento de objetos e seres à sua volta, desvia, reduz a velocidade ou toma outra providência, conforme o caso. Em estágios posteriores, essas habilidades vão se requintar, inclusive nas funções acessórias, relacionadas ao conforto dos ocupantes do carro.  Podemos pensar em carros capazes de diferenciar o humor do ocupante, escolher uma música adequada e entabular uma conversa – talvez capazes até de reclamar do trânsito.

Até 2050, na visão de alguns cientistas, as máquinas rivalizarão com os humanos na capacidade de agir. Isso significa, diz Arie Halpern, que elas poderão aprender um jogo sozinhas, por dedução, serão capazes de interações sociais e até mesmo de criar, escrever ou pintar. Dificilmente serão artistas, mas certamente serão mais eficientes em analisar cenários e tirar conclusões matemáticas. Tarefas como as desempenhadas por robôs em Fukushima, onde foram convocados para realizar as tarefas de risco na limpeza do local do acidente nuclear, serão muito bem-vindas. Não falemos aqui em usos da IA para o mal, embora seja óbvio que essa deve ser uma preocupação colocada desde já. Usada para o bem, a IA poderá contribuir para solucionar ou prevenir problemas maiores, como o aquecimento global, as epidemias e os desastres naturais.

As disrupturas provocadas pela IA exigirão cuidados especiais para que a inteligência crescente das máquinas e o seu uso indiscriminado não se transformem em armadilha para humanos. Não no sentido de uma rebelião das máquinas contra seus criadores. À medida que o emprego dessa tecnologia passa a fazer parte do dia a dia, convém que se pesquise também o impacto do seu uso no processo de aprendizagem, especialmente das crianças, e que se adotem cuidados para evitar seus efeitos daninhos sobre o desenvolvimento das próximas gerações. Com a adoção em larga escala da IA, será necessário também que aperfeiçoemos nossa capacidade de evoluir como humanidade. Porque o impacto social que se espera será de grande magnitude. Estimativa do Banco da Inglaterra fala em 48% dos trabalhadores humanos substituídos por robôs e softwares autônomos; só nos Estados Unidos, a ArkInvest calcula que 76 milhões de vagas de trabalho podem desaparecer nas próximas duas décadas. Com a chegada da IA, não seria chegado também o momento de realizar algumas utopias que a revolução industrial ensejou e não cumpriu – como a de reduzir a carga de trabalho para que as pessoas possam desfrutar da vida com plenitude?

O fato é que a presença da inteligência AI em nossas vidas é fato consumado. Em casa ou no trabalho, essa tecnologia chegará para otimizar nosso tempo e melhorar nossa capacidade intelectual, cognitiva e criativa. Empresas como Google e Apple estão empenhadas em fazer com que ela chegue o mais cedo possível ao nosso trabalhos e às nossas casas, mas ainda demorará muito tempo para que ela substitua os seres humanos.


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