Pimenta cultivada no espaço oferece refeições mais nutritivas e saborosas

Os astronautas que estão na Estação Espacial Internacional (International Space Station – ISS) tiveram a oportunidade de degustar, pela primeira vez na história, pimentas cultivadas no espaço. É o experimento com plantas mais complexo já feito no laboratório orbital. Isso porque as experiências anteriores foram feitas com espécies mais simples e que crescem mais rápido, como diferentes tipos de alface, zínias floridas e até rabanetes.

A produção de alimentos frescos é de grande importância, pois pode melhorar as condições de saúde em futuras missões espaciais, especialmente as mais longas e distantes. O desafio dos cientistas é estudar a capacidade de alimentar tripulações em órbita baixa da Terra (Low Earth OrbitLEO, entre 160 km e 2.000 km de distância do nível do mar) e, depois, em futuras missões além da órbita baixa da Terra, para destinos como a Lua ou Marte. Devido às condições, a pesquisa é limitada a culturas que não precisam de armazenamento ou processamento extensivo.

As refeições dos astronautas na ISS é praticamente toda pré-pronta, embora às vezes recebam alimentos frescos levados por missões de reabastecimento. Quanto mais tempo o alimento embalado fica armazenado, mais ele perde nutrientes, como as vitaminas C e K.

Os cientistas esperam que alimentos como a pimenta ajudem a complementar a dieta dos astronautas, fornecendo vitamina C e outros nutrientes necessários. Além disso, devido à vida em microgravidade, os astronautas podem perder parte do paladar e do olfato, o que dá ainda maior relevância a alimentos condimentados ou temperados.

As 48 sementes de pimenta foram plantadas por pesquisadores do Centro Espacial Kennedy e enviadas à ISS em junho do ano passado, em um dispositivo chamado transportador científico. Ele possui cavidades com argila, para o desenvolvimento das raízes, e um mecanismo para liberação controlada de um fertilizante especialmente formulado.

Sistema automatizado requer mínimo envolvimento da tripulação

Na estação espacial ele foi encaixado no Advanced Plant Habitat (APH), uma das três câmaras de crescimento de plantas a bordo. Do tamanho de um microondas, o APH é um sistema totalmente automatizado desenvolvido para a realização de pesquisas em biociência vegetal no espaço. Ele usa luzes LED vermelhas, azuis e verdes, e luzes LED brancas de amplo espectro, além de possuir  mais de 180 sensores que monitoram a temperatura, índice de oxigênio, irrigação, iluminação e ventilação, que transmitem as informações em tempo real sobre o crescimento das plantas e o meio ambiente para a equipe no Centro Espacial Kennedy. Dessa forma, requer o mínimo de envolvimento da tripulação.

“O grau de ardência de uma pimenta é determinado, além da variedade, pelas condições ambientais de crescimento. Elas podem ficar mais picantes ou mais brandas, dependendo da quantidade de água que recebem. Além disso, a ausência de gravidade também impacta”, explica Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas. A combinação de microgravidade, qualidade da luz, temperatura e umidade influencia o sabor.

Com todas esas variáveis, os pesquisadores levaram cerca de dois anos para chegarem à espécie  mais adequada para cultivar no espaço. A escolhida foi a pimenta Hatch, cultivada no Chile e no México. Os especialistas  desenvolveram uma semente híbrida combinando a pimenta Hatch Sandia e a tradicional pimenta Espanhola, do norte do Novo México.

Na Terra, essas pimentas crescem até cerca de 7,6 centímetros, mas o ambiente pode ter um impacto sobre seu desenvolvimento no espaço. Entre as pimentas cultivadas na ISS, parte será usada na alimentação dos astronautas e o restante será enviado à Terra para análise.