Poluição agrava coronavírus, mas qualidade do ar melhora com restrições

Especialistas em saúde pública estimam que as pessoas que moram em lugares poluídos estão sujeitas a consequências mais graves do coronavírus. Nas grandes aglomerações urbanas, o problema tende a ser mais impactante. A qualidade do ar comprometida pela atividade industrial, mas principalmente pelo transporte individual, que se manifesta nos grandes congestionamentos que atingem as metrópoles, causam danos aos pulmões e ao coração em longo prazo, e são responsáveis por pelo menos 8 milhões de mortes ao ano, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). “Se ainda não há uma comprovação estatística da correlação entre a mortalidade do coronavírus e a qualidade do ar, a medicina tem indícios suficientes para temer por esse agravamento”, diz o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern.

​No entanto, a atual pandemia de coronavírus tem provocado um efeito paradoxal. Os países que adotaram medidas severas de quarentena contra a propagação da doença viram cair naturalmente sua atividade econômica, e a poluição do ar desabou. Esse efeito não é duradouro, e os danos que já foram causados ao longo de uma vida respirando ar poluído não vão desaparecer de uma hora para outra. “Mesmo assim, num momento pontual, no qual toda ajuda para a saúde das pessoas que já foram infectadas é bem-vinda, não deixa de ser mais um efeito positivo da quarentena, que deve ser observada, já que os pacientes com problemas pulmonares e cardíacos crônicos podem se beneficiar dessa trégua”, completa Halpern.

​Os especialistas ouvidos pela imprensa internacional advertem que não estão reivindicando que o coronavírus pode ter efeitos positivos, e dizem ainda que o declínio da atividade econômica, embora melhore a qualidade do ar, pode acarretar em inúmeros outros transtornos perigosos para a saúde pública, como o adiamento de exames de rotina, de cirurgias eletivas, de cuidados preventivos para outras doenças, por exemplo.

 

Precedentes

O Covid-19 não é o primeiro surto perigoso da família do coronavírus a causar problemas em larga escala. Cientistas que analisaram o surto de coronavírus Sars na China, em 2003, descobriram que pessoas infectadas que viviam em áreas com mais poluição do ar tinham duas vezes mais chances de morrer do que aquelas em locais menos poluídos. Pesquisas sobre o surto de coronavírus Mers, na Arábia Saudita, em 2012, mostraram que os fumantes eram mais propensos a contrair a doença e a apresentar complicações. Pesquisas iniciais sobre Covid-19 sugerem que fumantes e ex-fumantes são mais suscetíveis ao vírus. A diferença é que o Covid-19 parece, felizmente, ter uma taxa de mortalidade geral menor do que Sars ou Mers.

 

Com informações: “The Guardian”, OMS; European Public Health Alliance; Stanford University