Por que os vírus sofrem mutações?

Ao entrar em uma célula, o vírus se replica para se espalhar. A cada replicação, ele pode sofrer mudanças no código genético ou trocar pedaços de material genético com outro vírus. Como todas as espécies, ele se modifica para facilitar a entrada nas células, se replicar mais e se tornar mais forte.

Mal estávamos começando a vacinar profissionais de saúde e idosos e foi detectada uma nova cepa do vírus Sars-Cov-2. Uma variação que teria aumentado exponencialmente os casos da doença. E que já se espalhou por dezenas de países. “Dados preliminares sugerem que a nova variante seja realmente mais infecciosa, mas ainda teremos de esperar novas análises para ter certeza se ela também tem maior velocidade de transmissão”, diz o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern.

Os vírus, como todos os outros seres vivos, passam por seleção natural e evoluem rapidamente. Mais rápido do que seus hospedeiros. E os vírus de RNA, como o causador da covid-19, sofrem mutações mais rápidas do que os vírus de DNA.

A mutação é um processo comum, porque, à medida em que o vírus se espalha,  sofre modificações no seu material genético. Eles se modificam, por exemplo, para conseguir entrar com mais facilidade nas células e se replicarem garantindo sua sobrevivência. E, assim, se tornam mais contagiosos ou mais resistentes às defesas imunológicas que o organismo desenvolve. Dessas mutações podem surgir novas variantes, linhagens e cepas.

A variante é quanto o vírus se modifica durante o processo de replicação e essa mudança na sequência de proteínas se torna permanente. O vírus original pode ter várias variantes, cada uma resultante de uma modificação diferente. Quanto mais ele circula e é transmitido de uma pessoa para outra, maior a possibilidade de sofrer mudanças.

Variação por recombinação e mutação

Quando dois vírus infectam uma célula ao mesmo tempo, eles podem trocar material genético para formar novos vírus “misturados”. Essa variação se dá de duas principais formas: por recombinação, quando há troca de pedaços de material genético (DNA ou RNA), e por mutação, quando há alteração na sequência de DNA ou RNA.

As novas variantes que se originaram de um mesmo vírus formam o que é chamado de linhagem. Quando uma ou um conjunto dessas variantes começam a se comportar de forma diferente do vírus original, na maneira como infectam ou na resposta imunológica que desencadeiam, elas dão origem a uma nova cepa. Assim, uma mesma linhagem pode ter cepas diferentes.

As mutações no Sars-CoV-2 se concentram em dois principais aspectos, e ambos ocorrem na proteína spike, aquelas espécies de espinhos que parecem uma coroa.  A mutação N501 altera uma parte do spike, tornando mais fácil a entrada do vírus nas células. A outra é a eliminação dos aminoácidos H69 e V70, que aumenta a capacidade de infecção provocada pelo vírus.

É por causa dessas mutações que, a cada ano, precisamos modificar a fórmula da vacina da gripe. Conforme o vírus se modifica para vencer a imunidade desenvolvida pelas pessoas e continuar seu processo, temos de adotar uma nova versão de imunizante. “Ainda é cedo para saber as implicações das mutações em relação às vacinas já desenvolvidas”, diz Arie Halpern. É possível que seja necessário fazer o mesmo com a vacina contra a covid-19 nos próximos anos.