Proteína de peixe cultivada em laboratório preserva espécies ameaçadas

A tecnologia que possibilita cultivar carne em laboratório vem conquistando espaço e ganhando adeptos ao redor do mundo. Ela é a solução para alguns dos desafios contemporâneos. Entre eles, estão o combate ao aquecimento global, por meio da redução das emissões de gases do efeito estufa, a necessidade de aumentar a produção de alimentos para suprir a demanda gerada pelo crescimento populacional e a limitação de recursos para a preservação de algumas espécies.

Há algum tempo ouvimos falar sobre carne produzida em laboratório a partir de células-tronco de gado, aves ou porcos. Mais recentemente, uma nova categoria de proteína animal chegou aos laboratórios: os peixes. A diferença para o cultivo celular deles é que, diferente de outros animais, há uma enorme diversidade de espécies aquáticas. E cada uma delas tem um aspecto, textura e sabor próprios. Alguns deles, como as lagostas, têm uma dificuldade a mais por serem invertebrados.

Empresas dedicadas à produção de carne de peixes em laboratório vêm chamando a atenção e ganhando espaço. Há poucos dias, a BlueNalu, com sede em San Diego, anunciou uma parceria para levar seus produtos para a Europa e a Wildtype, da Califórnia, passou a oferecer degustação num espaço ao lado de sua planta em São Francisco, onde oferece pedaços de salmão cultivado em laboratório.

E pelo menos uma startup já está cultivando proteína animal por meio de aquicultura em laboratório no Brasil. A Sustineri Piscis começou a realizar pesquisas e desenvolvimento no laboratório do Banco de Células do Rio de Janeiro (BCRJ) no ano passado e prevê que até o fim de 2022 concluirá os primeiros quilos de pescado cultivados em laboratório. O cardápio deve ter quatro espécies: garoupa, cherne, robalo e linguado.

Duas destas são espécies ameaçadas de extinção. A preservação, aliás, é mais um dos argumentos a favor da carne de laboratório, pois poupa as espécies da pesca predatória. A carne de laboratório é obtida a partir de tecidos e não depende de material obtido com o abate do animal. A pesca e a criação de peixes vêm enfrentando dificuldades devido aos danos ambientais que causam.

Segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o consumo per capita de pescado no Brasil é de 9 kg/ano, menor do que a média mundial de 20,5 quilos por ano. A recomendação da Food and Agriculture Organization (FAO), das Nações Unidas, é de que o consumo de peixes deve ser de 12 kg/ano por pessoa. Mas, segundo a entidade, a população de peixes próprios para consumo, considerando os níveis biologicamente sustentáveis, caiu de 92% em 1978 para 66% em 2017. Isso aconteceu porque, além da ameaça de extinção, grande parte da carne de peixes sofre de contaminação por metais pesados, como o mercúrio.

Custo elevado

Vencidas as etapas em laboratório, o grande desafio é chegar à viabilidade comercial, devido ao alto custo. Neste quesito, a carne de peixe produzida a partir de células deve seguir a trajetória da carne bovina. Há cerca de sete anos, quando o primeiro hambúrguer produzido em laboratório chegou à mesa, custou 250 mil euros. De acordo com a startup israelense Future Meat, a produção de um quilo de carne bovina está em torno de US$ 660, enquanto a de frango está em US$ 330.

“O que mais pesa no custo é a obtenção do soro fetal bovino, principal insumo para cultivar carne em laboratório”, explica Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas. Ele a acrescenta que “há estimativa de que o preço médio de um quilo de carne bovina produzida a partir de células chegue a US$ 40 até o fim da próxima década”.