Quem tem medo de moeda digital?

Antes uma novidade para muitos, o conceito de criptomoeda já se tornou banal a ponto de hoje existirem mais de mil tipos de moedas digitais diferentes, cada uma com sua cotação. Seu uso já se tornou tão popular que alguns países cogitam torna-la a moeda oficial, devido à praticidade e segurança que o sistema virtual oferece.

Para expressar o poder das moedas virtuais, vale relembrar o caso do investidor norueguês que, em 2009, desembolsou cerca de 27 dólares para comprar 5.000 bitcoins – uma moeda virtual inventada no ano anterior – e depois esqueceu o assunto, talvez  arrependido por ter gasto, ainda que uma pequena quantia, num ativo tão insólito. Quatro anos depois ele leu uma matéria sobre moedas digitais e resolveu resgatar esses créditos, pensando em dar melhor destino àquele dinheiro e ficou pasmo ao descobrir que os seus bitcoins valiam, então, 886 mil dólares. O investimento tinha sofrido uma valorização de 3.281.381%.

O curioso e inusitado acontecimento, tornado público em 2013, entrou para a história do mundo digital. Passados quase 10 anos desde que foi inventada primeira criptomoeda, esse mercado adquiriu um volume expressivo e diversas outras moedas digitais foram criadas para concorrer com os bitcoins, como a Ethereum, a Ripple e o Litecoin – todas buscando o mesmo boom de valorização que deu fama meteórica ao bitcoin.

Sob o ponto de vista do mercado financeiro, a moeda virtual é disruptiva por natureza, a começar pelo conceito que adotou. As transações se baseiam em uma rede peer-to-peer (ponto-a-ponto), em que os computadores se conectam entre si sem necessidade de um servidor central. Isso permite que os pagamentos on-line sejam feitos diretamente entre as pessoas, sem passar por uma instituição centralizadora. Para garantir a confiabilidade, todas as transações confirmadas são registradas em uma contabilidade pública chamada “cadeia de blocos” (blockchain), e não podem ser apagadas. Impede-se assim que alguém venda fraudulentamente o mesmo estoque de moedas para mais de uma pessoa. O blockchain é considerado tão bom e vantajoso que está sendo adotado até em Wall Street.

O anonimato em transações na rede é apontado como uma das grandes vantagens da moeda. Ao realizar uma compra, o dinheiro virtual é debitado da sua conta, porém o site não consegue rastrear informações pessoais suas – como nome ou CPF – como acontece com o uso de cartões de crédito tradicionais. A única rastreabilidade é o número do IP do computador usado na transação. Dessa forma, o consumidor consegue se livrar de propagandas indesejadas das empresas e fica mais protegido contra fraudes.

Tal como outras inovações disruptivas, a moeda digital tem de transpor algumas barreiras até poder se estabelecer: precisa conquistar a confiança do consumidor; precisa se diferenciar dos serviços existentes e tem de pular o muro levantado pelas empresas que dominam o sistema financeiro mundial, comandado pelos bancos.

O grande temor dos bancos é que o uso de bitcoins elimine o custo da intermediação das transações, eliminando esse papel desempenhado hoje pelas instituições financeiras. Por conta disso, bancos estão se movendo para modernizar o sistema sem perder o controle que têm sobre o mercado. É uma das reações clássicas aos processos de disruptura.

Publicado em Reflexões Link Permanente

Sobre Arie Halpern

Arie Halpern é um economista e empresário com vocação para inovações. Criou empresas alinhadas ao conceito de tecnologia disruptiva, como a CTF Technologies, e atualmente é diretor da irlandesa Tonisity, que desenvolveu uma tecnologia inovadora em nutrição e bem estar de porquinhos.

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