Remédio usado para malária pode ajudar no tratamento do coronavírus, mas ansiedade deve ser evitada

Um dos efeitos de uma crise sanitária como a que estamos vivenciando é o aumento da ansiedade. Com boa parte das pessoas em casa, consumindo notícias sobre o Covid-19, há o desejo de respostas rápidas, na velocidade com a qual estamos acostumados a interagir. Queremos que a solução chegue tão rápido quanto as correntes de WhatsApp.

A cada nova possibilidade de remédio preventivo ou curativo, desenvolvido por um centro de pesquisa em alguma universidade ou empresa privada do mundo, temos todas as atenções da imprensa, dos comentadores e do público em geral voltadas àquele grupo de trabalho. É natural que isso ocorra, e não há nada de errado em conferir os últimos passos das pesquisas sobre algo que afeta de uma maneira tão próxima a nossa realidade. No entanto, devemos ter sempre em mente que é preciso evitar a ansiedade e compreender que os resultados, no campo da ciência e da tecnologia, tem uma dinâmica própria. É necessário aguardar por resultados concretos sem abandonar os critérios rígidos dos cientistas e pesquisadores, bem como das autoridades sanitárias, para a liberação de tratamentos novos.

Um caso emblemático desse procedimento ocorreu durante essa semana, com os indícios de que as drogas hidroxicloroquina e cloroquina, presentes há muitas décadas em medicamentos para o controle dos efeitos da malária, teriam bons resultados para o tratamento das infecções de Covid-19. De fato, há várias equipes de pesquisadores trabalhando duro em centros de excelência espalhados ao redor do globo testando essa possibilidade. As drogas para a malária parecem de fato ajudar em casos graves. Mas, então, é preciso atenção redobrada. Todo medicamento tem efeitos colaterais, que podem ser bastante perigosos em alguns casos. Além disso, sem um número de testes razoável, não é possível sequer atestar que aquela droga foi de fato a responsável pela melhora dos pacientes. E, finalmente, em pessoas que têm históricos de outras doenças, justamente as que sofrem mais com as infecções de Covid-19, pode haver agravamentos do quadro com a introdução de um novo medicamento. Os riscos envolvidos devem ser dimensionados, sopesados com as vantagens oferecidas. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) soltou um comunicado dizendo que não se deve ministrar os remédios para malária em pacientes com coronavírus antes de novos testes, uma vez que estava havendo um aumento em sua procura.

Não deixa de ser curioso, e um bom tema para reflexão, se de fato forem confirmadas as vantagens da hidroxicloroquina e cloroquina para o tratamento do Covid-19, que remédios usados em uma doença tropical, que atinge em maior número pessoas pobres, tenha esse resultado. Isso porque as características sociais dos afetados por malária fazem com que os grandes laboratórios não priorizem pesquisas para esta doença, que acabam negligenciadas em nome de outros males disseminados entre grupos sociais com mais recursos. Mas quando é necessário mais conhecimento sobre alguma droga, não se faz isso correndo, apressadamente. A ciência se faz passo a passo, tem seu tempo, é um processo caro e que pode demorar. Esse é mais um motivo para sempre termos em mente a vantagem de investir em pesquisa, mesmo sem saber seu horizonte de realização em algo concreto. E de olhar para o bem estar das pessoas, mesmo as que não têm os recursos para responder rapidamente ao investimento dos laboratórios, porque nunca se sabe de onde virá o conhecimento que será revertido para o bem de todos.

Com informações: Anvisa, G1, UOL, OMS, The Wall Street Journal