Rússia e Ucrânia começaram guerra cibernética muito antes dos ataques físicos

Antes mesmo dos ataques militares da Rússia escalarem para a atual intensidade e força de destruição em terra, a Ucrânia já era alvo de ações rivais no ciberespaço. A chamada guerra cibernética, que se consolidou definitivamente com o atual conflito, vai muito além de tanques e mísseis. Os hackers agora são parte integral de ofensivas entre os países com o objetivo de gerar choques de efeito psicológico na população de todo o mundo.

Grupos ativistas, como o Anonymous, anunciaram a intenção de concentrar ataques aos serviços, sites e recursos russos. Um exército informal com cerca de 300 mil hackers se voluntariou para apoiar a Ucrânia na guerra cibernética contra a Rússia e há notícias de que um grupo recrutado pelo governo ucraniano, batizado Exército de TI, teria se mobilizado no serviço de mensagens Telegram para orquestrar ataques aos sites do governo e de veículos de imprensa russos.

Um aspecto importante dessa guerra é a interação entre a mídia tradicional e os novos canais de comunicação. Definitivamente afastamo-nos de um modelo de comunicação relativamente estático, no qual os jornalistas relatam as notícias dentro de limites e formatos determinados, para uma intensa cobertura, com a transmissão de uma profusão de informações e imagens que são compartilhadas online por milhões de pessoas a todo momento.

Guerra moderna e mídia

A guerra moderna e as tecnologias de mídia têm uma história longa e complexa. Durante a Primeira Guerra Mundial, os aviões serviam como armas e também como meios de comunicação, tirando fotografias aéreas e lançando panfletos de propaganda sobre as linhas inimigas. Os soldados chegaram a usar suas câmeras pessoais nos primeiros meses da guerra, até que os líderes políticos e militares proibissem tais práticas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, cada divisão do exército alemão tinha sua própria equipe de diretores de fotografia para filmar os combates. Em 1943, milhares de soldados participaram das filmagens de Kolberg, um filme de propaganda.

A Guerra do Vietnã é frequentemente considerada a primeira guerra sem censura por alguns estudiosos da mídia. Na Guerra do Golfo, em 1991, a cobertura 24 horas dos canais de notícias a cabo transmitiu imagens fornecidas pelos militares, que logo foram questionadas por quem estava no front. Alguns jornalistas de guerra cunharam a expressão Guerra da Nintendo, por mostrarem uma imagem idealizada do conflito. Desde então, a implicação da mídia na guerra aumentou em velocidade e fragmentação.

A guerra cibernética é um componente fundamental na atual guerra entre Rússia e Ucrânia. Parte considerável da estratégia de ambos os lados se dá por meio da internet e da infraestrutura que a suporta. Drones podem capturar enormes conjuntos de dados para análise por inteligência artificial que podem direcionar as ações, identificar a localização de soldados ou civis por mapas de calor, sinais digitais ou postagens de mídia social. Assim como as imagens podem ser dirigidas ou editadas.

Muitas técnicas históricas de propaganda se estendem ao ciberespaço, mas uma nova extensão emergente é o meio de direcionar e personalizar a desinformação. Técnicas agressivas de propaganda militar são combinadas com ferramentas de marketing online.

Os canais de TV oficiais na Rússia transmitem uma versão dos eventos que corrobora a narrativa do país sobre o conflito. Inclusive com a proibição do uso de palavras como guerra e invasão. As imagens suportam a visão de que os militares russos estão libertando a Ucrânia de neonazistas e radicais.

Acusações de falsificação, propaganda e censura sempre fizeram parte da guerra, mas o conflito cibernético inclui complexidades adicionais. A disseminação intensiva e rápida de informações falsas e reais, as quantidades e tipos de dados coletados e a documentação extensa e em tempo real dos eventos revelam a integração da informação e da comunicação em todos os aspectos da guerra.