Smartphones podem ajudar a combater o analfabetismo?

A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) publica, periodicamente, relatórios sobre o uso de telefones e celulares nas regiões mais pobres do mundo. Em um desses estudos, intitulado Reading in the Mobile Age, a entidade concluiu que, apesar de smartphones ainda serem usados ​​principalmente para comunicação básica, eles também são, cada vez mais, uma porta de entrada para textos longos.

Embora soe estranho, há uma explicação para essa conclusão: os celulares são um item muito mais presente na vida da maioria da população mundial do que, digamos, banheiros! Segundo as Nações Unidas, apenas 4,5 bilhões de pessoas têm acesso a um banheiro com água encanada. Já os celulares são usados por mais de 6 bilhões de pessoas em todo o mundo. Vejamos a Índia, por exemplo: enquanto metade da população possui pelo menos um celular em funcionamento, menos de 1/3 de sua população tem água encanada em casa.

Para comprovar os números, os pesquisadores da UNESCO entrevistaram mais de 4.000 pessoas em sete países (Etiópia, Gana, Índia, Quênia, Nigéria, Paquistão e Zimbábue) e também realizaram várias entrevistas qualitativas. Eles ouviram relatos de mulheres e homens, meninas e meninos que leram mais de um livro em telefones celulares, que podem ser comprados por menos de US$ 30,00. A penetração do celular é maior que a do livro, já que nos países subdesenvolvidos o acesso a obras físicas é um privilégio para poucos. Na Nigéria, onde há uma biblioteca para cada 1,3 milhão de pessoas e o analfabetismo é uma realidade que atinge 40% da população, o primeiro contato de muitas pessoas com textos só é possível por meio do telefone celular.

O uso de smartphones como meio de difundir a leitura poderia ter maior eficácia caso a internet fosse mais acessível. Na África, por exemplo, apenas 7% dos domicílios estão conectados à internet, em comparação com 77% na Europa. Dessa forma, a ampliação da leitura para a maioria da população que não está conectada é mais lenta, uma vez que dependem do sinal de lojas ou locais públicos com acesso wi-fi.

É importante ressaltar que o processo de alfabetização envolve não só a leitura como a interpretação dos textos lidos, tarefa que normalmente conta com auxilio de um professor. A ausência de alguém que possa tirar as dúvidas de quem lê por conta própria nas regiões citadas – onde o ensino é defasado e há pouquissima oferta de bibliotecas públicas – contribui para a alfabetização precária de parte da população. Ainda assim, os smartphones podem ser a única chance de contato com a leitura para muitas pessoas.

A baixa alfabetização afeta 758 milhões de adultos no mundo e certamente os smartphones não resolverão o problema. Mas, na era da conexão, a tecnologia pode ser uma aliada para superar desafios prementes como este.


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