Sonho de construir “Sol artificial” está um passo mais perto

Cientistas chineses devem concluir até dezembro o reator HL-2M Tokamak (EAST), um equipamento experimental de fusão nuclear a frio. O objetivo de longo prazo desse tipo de tecnologia é produzir energia limpa, barata e abundante que, ao contrário dos atuais modelos de usinas atômicas de fissão nuclear, não deixa resíduos radioativos. O reator de fusão nuclear é apelidado de “Sol artificial” porque ele reproduz o tipo de reação que ocorre no interior do astro: uma imensa pressão sobre dois átomos de hidrogênio os funde, fazendo com que se tornem um único átomo de hélio, liberando uma quantidade gigantesca de energia. Os cientistas já conseguem há muito tempo produzir esse efeito, mas apenas na forma de uma explosão, na chamada Bomba H – uma bomba de hidrogênio que usa como estopim uma bomba atômica radioativa, de urânio ou plutônio enriquecidos. O desafio, entretanto, é realizar a fusão de forma controlada, por isso chamada “a frio”, para que a energia possa ser capturada com fins econômicos.

Embora o avanço que está prestes a ser anunciado pelos chineses ainda não seja a resposta definitiva para a fusão nuclear, ele representa mais um passo nessa corrida. Não se espera que o equipamento seja superavitário em energia, ou seja, que ele produza de forma consistente mais calor do que o necessário para impulsioná-lo. O equipamento já demonstrou que é capaz de aquecer elétrons acima de 100 milhões de graus Celsius e o que se espera, a partir do próximo mês, são testes com mais energia, subindo a corrente elétrica de 1 trilhão para 3 trilhões de amperes, aquilo que os especialistas consideram o mínimo necessário para atingir o efeito da fusão na Terra.

“Esse é um sonho dourado da ciência, desde que a capacidade de transformação de massa em energia foi descrita de forma teórica pelo próprio Albert Einstein na famosa fórmula: energia é igual a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado”, diz o especialista em tecnologia disruptivas Arie Halpern. “A questão agora é fazer uma máquina que seja economicamente viável e segura, uma tarefa bastante desafiadora”, completa.

 Avanços a passos lentos

 Enquanto isso, a maior experiência a respeito de fusão a frio continua gerando muitas dúvidas para especialistas e administradores. O ITER (International Thermonuclear Experimental Reactor), que está sendo construído na França com o apoio da União Europeia, Estados Unidos, China, Japão e India, sofre com atrasos e aumento de custos. O objetivo do equipamento num primeiro momento era produzir energia de 500MW em 2025, mas agora já se fala em 2035 ou 2040, com custos que deverão passar muito dos US$ 13 bilhões de dólares iniciais. De qualquer forma, entende-se que não é realista pensar em um aproveitamento comercial da energia do “Sol artificial” na Europa ainda na primeira metade do séc. 21. Essas dificuldades causam preocupação entre os ambientalistas, que advertem para que não se conte com a tecnologia do “Sol artificial” como substituto de energias fósseis: quando ela for viável, pode ser tarde demais para reverter os efeitos das mudanças climáticas.