Streaming, a tecnologia que mudou a forma como assistimos televisão

Pode-se dizer que um castelo de cartas, figura geralmente associada a algo efêmero e frágil, foi o principal motivo para a disruptura do tradicional modelo de TV, ao qual nos habituamos a consumir conteúdo durante décadas. Quando, em 2011, a oferta da Netflix venceu a disputa pelos direitos do drama “House of Cards”, a indústria da TV começou a mudar radicalmente.

Embora existisse desde 1997, no início como um serviço de envio de conteúdo gravado em DVD para a casa dos clientes,  e, uma década depois, como canal de reprises de programa em streaming, ao dar o primeiro passo para a produção de conteúdo original, a empresa foi um divisor de águas. E, ali, também se diferenciou, abrindo uma margem de vantagem para outros serviços de streaming, como Hulu e Amazon Prime, que já haviam entrado na disputa.

“A produção de “House of Cards” foi mais do que uma aposta bem-sucedida, ela foi o início da disrupção no setor de mídia global”, diz Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.  O castelo de cartas não só firmou as bases do streaming, ele gerou um novo modo de assistir TV que continua evoluindo até hoje, cujos cinco principais efeitos foram:

  1. O hábito de maratonar

Embora a prática do que passamos a nos referir como maratonar, ou assistir a vários episódios ou capítulos do mesmo programa de uma vez, já fosse feito antes, isso se tornou um hábito, bastante popular, a partir do streaming. Especialmente porque a prática passou a ser estrear uma temporada inteira de uma vez e não mais o modelo tradicional de exibir ou liberar os episódios semanalmente, ou mesmo diariamente. Isso fez com que fosse possível consumir o conteúdo na hora que for melhor para cada um. A previsão é que essa prática se torne ainda mais forte e que as próprias programações de TV possam passar a experimentá-la, exibindo um programa ao longo de horas.

  1. Conteúdo de nicho para espectadores de nicho

Até há não muito, o modelo era criar conteúdo para agradar uma ampla base de público. Quanto maior o público que agradasse, mais tempo o programa, como as séries, se manteria no ar. Mas a possibilidade de mudar a tela, da TV para o tablet ou celular, levando-os para qualquer lugar, fez com que os hábitos mudassem, dando margem à fragmentação da audiência. Se tornou cada vez mais importante atrair o espectador fiel ao programa, aquele que assiste continuamente, comenta e posta nas redes sociais, e dar a ele a oportunidade de decidir quando e onde quer assistir. Para isso, é necessário segmentar cada vez mais. O streaming ampliou as possibilidades de ter acesso a programas sobre gêneros e assuntos muito específicos, sempre de acordo com o interesse do espectador.

  1. Surgimento de novos provedores de streaming

Recentemente, tivemos lançamentos de novos provedores como Disney+Apple TV+ e HBO Max, exemplos do movimento de empresas tradicionais da mídia entrando para competir no streaming. Alguns deles, levando para o novo canal programas e séries já exibidas (e ampliando a receita com elas). Esses novos concorrentes estão lançando mão de suas marcas de sucesso para atrair assinantes. É um modelo completamente novo para a televisão e ainda precisaremos de tempo para ver se será bem-sucedido e se o mercado comporta uma quantidade ilimitada de provedores de streaming.

  1. Queda da publicidade na TV

Nos últimos anos, a queda de investimentos em publicidade na TV é inegável e deve continuar. Grandes eventos, como Copa do Mundo e Olimpíadas, continuarão a atrair investimento para os canais tradicionais de TV, mas a chegada do streaming provocou mudanças fundamentais entre os anunciantes e em suas decisões de investimento, seguindo o movimento dos espectadores.

  1. Mudança na fórmula de medição de audiência

As classificações tradicionais para medir a audiência de programas e canais de TV nunca foram perfeitas, sempre houve questionamentos, mas também nunca surgiu um formato melhor. O streaming deu início a mudanças. Ainda não chegamos a um consenso quanto ao formato a ser adotado, mas o certo é que, para termos uma fotografia mais real das preferências dos consumidores, precisamos um novo modelo.