Tecnologia não é a bala de prata que fará a vida voltar ao normal

Acuados por uma pandemia que fez com que milhões de pessoas no mundo mudassem suas rotinas e hábitos em questão de semanas, criamos o compreensível desejo de que uma solução rápida resolva um problema de saúde global. Habituados aos avanços que nas últimas décadas solucionaram uma série de limitações e descomplicaram a vida, também compreensivelmente nos voltamos à tecnologia esperando que dela venha a chave que possibilitará voltarmos à vida normal.

Queremos que a tecnologia nos ajude a monitorar as pessoas que se expõem ao risco de contrair o novo coronavírus, que ela dê suporte aos serviços de saúde para que consigam atender o grande número de contaminados e que nos diga rapidamente se o que sentimos são sintomas da Covid-19.

Desde o início do surto, a tecnologia tem de fato contribuído muito para lidar com o problema. Usando inteligência artificial, a empresa canadense BlueDot alertou seus cliente sobre a doença antes mesmo da Organização Mundial da Saúde (OMS) baseada na análise de milhares de relatórios e artigos de networks de saúde em 65 idiomas.

Com o uso de big data, autoridades públicas calculam o risco de contágio baseado no histórico de deslocamento e no tempo que as pessoas permanecem em locais críticos. Algoritmos monitoram o comportamento usando sistemas de geolocalização que medem o índice de isolamento social e drones que transportam suprimentos médicos para locais remotos são alguns exemplos, sem mencionar a tecnologia usada para o trabalho remoto e reuniões virtuais que garantem a continuidade do trabalho e a segurança de muitos de nós.

Os bilhões de dados que geramos online e a conexão por meio de nossos smartphones e outros dispositivos são extremamente úteis, não só no campo da saúde, mas também na economia, seja na manutenção da atividade ou na previsão e busca de soluções para os problemas que teremos. Mas mesmo os dados têm limites e não podemos pensar que a tecnologia é a bala de prata que fará nossa vida voltar ao normal.

Os dados e tecnologias -– algoritmos, geolocalização, identificação facial etc. — são instrumentos fundamentais, mas não substituem o conhecimento e as percepções de quem está lidando com os fatos reais nem tomam decisões por si só.

Não sabemos como será a realidade num futuro próximo. Talvez tenhamos que usar serviços de monitoramento antes de embarcar em aviões, entrar em locais de grande movimento ou no transporte público. Ou muitos lugares passem a ter termômetros com luz infravermelha ou tenhamos que usar monitores de sinais vitais ou mesmo, em vez de mostrar documento, tenhamos de mostrar o comprovante de vacinação. Mas, certamente, nos adaptaremos ao que chamamos de “novo normal” e estaremos melhor preparados para situações de crise.