Tecnologia permite a identificação de novos habitats para salmões do Pacífico

As mudanças climáticas estão ameaçando a população de salmão e destruindo cadeias alimentares no Oceano Pacífico. Efeitos como aquecimento dos riachos onde ocorre a desova, tempestades que varrem leitos de rios e períodos prolongados de secas vêm dizimando a espécie. Estima-se que a população atual do peixe selvagem seja de, no máximo, 3% da quantidade historicamente registrada.

Os salmões nascem em riachos e rios de água doce e nadam para o Oceano Pacífico, onde ganham 99% de seu peso adulto. Depois eles retornam aos riachos onde foram incubados para desovar e morrer, dando início ao ciclo novamente. Mas, com os efeitos do aquecimento global, este ciclo está ficando cada vez mais difícil.

Agora, um estudo conduzido por especialistas da Simon Fraser University (SFU), no Canadá, indica que o derretimento das geleiras na Colúmbia Britânica e no Alasca pode criar novos habitats para os salmões nas próximas décadas. Estima-se que cerca de 75% do gelo glacial nas montanhas da costa da Colúmbia Britânica derreterá até 2100, alterando a temperaturas dos rios, a criação de sedimentos e o fluxo da água.

O salmão do Pacífico ocupa uma ampla faixa ao longo da costa ocidental dos Estados Unidos e do Canadá, que vai do sul da Califórnia até o norte do Alasca, chegando até a Rússia, no oeste do Oceano Pacífico. Eles vivem e se reproduzem em riachos com água fria, cristalina e abundante.

Vestígios da última era glacial, as geleiras nesta região estão derretendo há décadas, criando rios nos quais o salmão entra para desovar. Segundo os ecologistas, conforme as condições vão se estabilizando nos rios e riachos recém-formados, em questão de anos o salmão pode colonizar essas áreas. O estudo identificou a reprodução de milhares de salmões em locais onde apenas 10 anos antes havia uma geleira, provando o quanto a espécie é adaptável e resiliente.

Os cientistas usaram um modelo computacional para projetar o recuo glacial considerando um modesto aumento de temperatura na região da Colúmbia Britânica e no centro-sul do Alasca, onde há cerca de 46.000 geleiras. O resultado revela uma expansão de mais de 6 mil quilômetros de rios e riachos com inclinação inferior a 10%, o que permite a travessia dos peixes. Destes, 2 mil quilômetros formariam um novo habitat com condições adequadas para a desova e criação de filhotes. “Projeções computacionais podem contribuir para que os agentes evolvidos nas políticas de preservação ambiental se antecipem aos fatos e estabeleçam diretrizes que evitem a extinção de espécies”, alerta o especialista em tecnologias disruptivas, Arie Halpern.

Nova corrida do ouro ameaça o futuro

A descoberta, apesar de animadora, não significa que o futuro da população de salmão esteja garantido no Pacífico. A região abriga depósitos de ouro e cobre e há grande interesse de mineradoras, que já reivindicam a exploração em áreas que estavam soterradas pelo gelo. A mineração no leito dos rios pode degradar rapidamente o habitat de desova e criação de salmões.

Outro motivo de preocupação é que, ainda que demore, o gelo, que cria e alimenta os rios, acabará derretendo totalmente. Com o aquecimento, a água pode simplesmente desaparecer. Para garantir a sobrevivência do salmão, é preciso estabelecer medidas de proteção a este novo habitat.