Tecnologia permite ler pergaminhos romanos atingidos pela erupção do vulcão Vesúvio

O vulcão Vesúvio, no sul da Itália, entrou em erupção no ano 79 d.C. arrasando as cidades romanas de Pompeia e Herculano, num dos episódios mais conhecidos da História Antiga. Além das perdas humanas e materiais, também foram parcialmente destruídos os registros de uma biblioteca de pergaminhos. As obras não foram diretamente atingidas pela lava incandescente, mas por gases e cinzas. Esses documentos permaneceram desde então enrolados sobre si mesmos, numa condição extremamente frágil – o que tornava sua leitura impossível até agora.

No entanto, cientistas da Universidade do Kentucky recentemente testaram uma nova técnica que combina raio X de alta energia e inteligência artificial para decifrar os conteúdos dos pergaminhos. A ideia é que o raio X consiga  fazer a varredura do texto por dentro dos rolos de couro na qual as letras foram grafadas, sem abri-los. O software de Inteligência Artificial (AI) seria capaz de completar as partes que se mantêm ilegíveis, acrescentando contextos que dotariam as frases de sentido. Nesse primeiro momento, os pesquisadores estão capacitando o software com informações sobre os pergaminhos para possibilitar sua aplicação nas peças.

Os dois pergaminhos fechados que serão sondados pelo experimento pertencem ao Institut de France, em Paris, e fazem parte de uma coleção de cerca de 1.800 documentos que foram descobertos pela primeira vez em 1752, durante escavações em Herculano. Juntos, eles formam a única biblioteca completa conhecida da antiguidade, com a maior parte da coleção agora preservada no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. Os pesquisadores entendem que a vila de Herculano pertenceu ao sogro de Júlio César, o ditador romano que foi assassinado em 44 a.C.

“A aplicação de tecnologias em arqueologia mudou o patamar desse tipo de pesquisa”, diz o especialista em tecnologias disruptivas Arie Halpern. Segundo o especialista, o caso mais notável é a introdução da medição por decaimento do carbono, o chamado Carbono14, há algumas décadas. “Aquele foi um momento de virada para o estudo do passado, e agora, com a introdução da Inteligência Artificial, podemos estar diante de mais um salto”, completa.

Textos inéditos

As pequenas amostras já decifradas da biblioteca estão entusiasmando os pesquisadores em cultura romana. A perspectiva é que possam ser encontrados textos que eram considerados perdidos para sempre, como odes da poetisa Safo, textos de filosofia epicurista, e – ao que parece – um tratado escrito pelo político Marco Antônio sobre a própria embriaguez. As bibliotecas de pergaminhos dessa época mantinham uma seção em grego e outra em latim, e a maior parte dos documentos coletados está em grego, o que dá esperanças aos arqueólogos de que haja ainda um montante de textos a ser descobertos e desvendados na língua dos romanos, escondida em algum lugar de Herculano, onde as escavações ainda prosseguem dois séculos depois de seu primeiro achado.