Sua vida nas mãos da tecnologia: sacrificar a privacidade em troca de comodidade

No mesmo mês em que Mark Zuckerberg – criador do Facebook – é chamado ao Congresso americano para explicar como sua rede social disponibilizou para uma empresa britânica os dados de 87 milhões de usuários, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) lançou mais uma tecnologia considerada disruptiva: um dispositivo capaz de “ler” os pensamentos das pessoas. Esses dois acontecimentos jogam lenha na fogueira do interessante debate acerca do anonimato online e deixam a pergunta: é saudável permitir que máquinas acessem a nossa privacidade em troca de comodidade?

Não se trata apenas de vazamento de informações, mas também do descaso de grande parte dos usuários. Muitos dos aplicativos e programas que usamos possuem longos termos de uso explicando minuciosamente quais os direitos de imagem e utilização de cada serviço. O usuário quase sempre ignora essas etapas e não se preocupa com as condições de uso dos apps que utiliza, expondo assim seus dados pessoais.

E, em pouco tempo, até nossos pensamentos poderão ser transformados em dados acessíveis pela rede: o MIT lançou um dispositivo que ouve aquela voz interna na sua cabeça por meio de sensores neuromusculares.

O dispositivo é um aparelho usado no rosto, semelhante a um fone de ouvido. Chamado de AlterEgo, é capaz de captar sinais verbalizados internamente e envia essas informações diretamente para um celular ou tablet. A ideia do produto é que você possa pensar em ligar para alguém e seu celular efetue essa ligação sem que você precise tirá-lo do bolso . Tudo o que for pensado pelo usuário será automaticamente captado pelo dispositivo. As informações coletadas pelo AlterEgo não serão compartilhadas com nenhum agente externo, prometem seus idealizadores.

É fácil encontrar exemplos de situações nas quais abrimos mão da privacidade em nome da comodidade. Para que possamos relaxar, acabamos colocando decisões importantes de nossas vidas nas mãos das máquinas, acreditando que esses dados estão seguros. Isso pode ser um equívoco.

Além do Facebook, a Amazon e o Whatsapp também estão devendo quando o assunto é a privacidade. Quem afirma isso é a EFF (Electronic Frontier Foundation), organização sem fins lucrativos que busca proteger os direitos de liberdade de expressão na era digital. Elas foram criticadas por não adotarem políticas públicas fortes para pedidos de dados feitos pelo governo norte-americano.

A polêmica com o criador do Facebook, por sua vez, começou quando um pesquisador da Universidade de Cambridge recebeu permissão da rede social para usar dados de usuários para fins acadêmicos. O pesquisador teve acesso direto ao perfil de mais de 87 milhões de pessoas e a informação foi vendida para a Cambridge Analytica, empresa de análises de dados vinculada ao Partido Republicano, acusada de alavancar a campanha do atual presidente Donald Trump com base nessas informações obtidas de maneira ilegal.

Trata-se de um episódio grave de vazamento de informações pessoais, mas também serve como alerta para repensarmos a nossa relação com as redes sociais. Muitas empresas conseguem puxar informações acerca de uma pessoa por meio de perfis digitais, sem que sejam necessárias habilidades de hacker. Por meio de fotos, postagens e citações, expomos muito de nosso cotidiano de maneira totalmente aberta.

Publicado em Reflexões Link Permanente

Sobre Arie Halpern

Arie Halpern é um economista e empresário com vocação para inovações. Criou empresas alinhadas ao conceito de tecnologia disruptiva, como a CTF Technologies, e atualmente é diretor da irlandesa Tonisity, que desenvolveu uma tecnologia inovadora em nutrição e bem estar de porquinhos.

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