Tecnologia vestível ou doping tecnológico?

A cada quatro anos, nos Jogos Olímpicos, volta à pauta a questão sobre os limites e os efeitos do uso de tecnologia no esporte. Não foi diferente na Olimpíada de Tóquio. Depois de conquistar a medalha de ouro na prova dos 400 metros com barreiras, reduzindo em sete décimos de segundo seu próprio recorde mundial, o atleta norueguês Karsten Warhol, declarou que o uso de tênis com tecnologia de carbono por muitos corredores prejudica a credibilidade dos atletas.

Ele se referia a um novo modelo de tênis, usado por vários atletas (inclusive pelo segundo colocado na prova, o americano Rai Benjamin). Trata-se de uma espécie de sapatilha superleve com uma placa rígida e uma espuma especial que tem o efeito similar a um trampolim, dando propulsão a cada passada.

A declaração desencadeou a discussão. Para os críticos, a nova tecnologia dos tênis configura o chamado doping tecnológico, ou seja, a situação em que a tecnologia confere vantagem indevida a um atleta. Do outro lado, o argumento é que a nova geração de sapatos de corrida é parte do avanço do esporte. 

Borracha e ar transformam pista de corrida em trampolim

As novas tecnologias não estavam somente nos pés de alguns atletas. A própria pista de corrida do Estádio Olímpico de Tóquio também incorporou avanços para contribuir para a performance dos atletas. Os projetistas do Estádio Olímpico adicionaram grânulos de borracha à pista e fizeram sua última camada com um design hexagonal que retém pequenos bolsões de ar para absorver o choque na pisada, armazenar energia e oferecer uma resposta cinética imediata. Ou seja, a pista absorve a energia gerada pela passada dos atletas e a devolve para o corredor impulsionando seus passos. A diferença, nesse caso, é que todos os atletas usam a mesma pista, mantendo a condição de igualdade.

Ao longo da história, o desempenho de alto nível dos atletas é resultado de muita disciplina, treino árduo e anos de dedicação. Mas, a tecnologia, cada vez mais, pode fazer a diferença. E estabelecer os limites para que ela não se sobreponha às condições humanas é o grande desafio.

Do uso de fibras especiais nos maiôs de natação aos calçados específicos para corrida, da biomecânica e análise de dados à gravação de vídeo e uso de realidade aumentada para avaliar e melhorar a performance, praticamente todos os atletas estão usando diferentes tecnologias tanto nos treinamentos quanto durante as competições.

Quem não lembra a celeuma causada nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, pelo maiô LZR (Laser)? Com ele, foram superados 23 dos 25 recordes mundiais nas piscinas. Depois de muita análise e discussões, foram considerados uma vantagem injusta pela FINA (Fédération internationale de Natation) e proibidos nas competições.

Olímpicos e paralímpicos

Da mesma forma, a tecnologia desempenha papel relevante para os atletas com deficiência e provoca a mesma controvérsia. Nos Jogos Paralímpicos de 2016, a atleta alemã Denise Schindler foi a primeira ciclista a competir com uma prótese de perna totalmente impressa em 3D. Mas o caso mais emblemático talvez seja o do sul-africano Oscar Pistorius.

O atleta, que usa próteses nas duas pernas amputadas, se tornou o primeiro amputado a competir em uma Olimpíada. Foi banido de competições com atletas sem deficiência, mas acabou vencendo a causa no Tribunal Arbitral do Esporte, em 2008, e competiu nos Jogos de Londres, em 2012.

O uso de novas tecnologias prolifera dentro e fora das pistas e estádios. Sensores de força colocados nos sapatos, botas de esqui ou pedais de bicicleta são grandes aliados na melhoria da performance, porque podem fornecer um fluxo contínuo de dados durante os treinamentos.

Em Tóquio, um sistema de rastreamento de atletas em 3D possibilitava aos treinadores avaliar a cada minuto os movimentos de seus atletas olímpicos. O sistema dotado de inteligência artificial ajuda a entender a biomecânica do movimento capturado por câmeras, revelando a posição das principais articulações do corpo. Isso permite adequar os métodos de treinamento, para melhorar o resultado.

Embora não interfira diretamente nas provas, como os tênis ou a pista, que ajudam a impulsionar as passadas, as tecnologias vestíveis usadas em treinos não são acessíveis a todos os atletas. Devido ao alto custo, a tecnologia esportiva avançada vem ampliando a desigualdade entre equipes de países ricos e em desenvolvimento. Pode ainda prejudicar o desenvolvimento de atletas com menor poder aquisitivo.

Apesar das controvérsias em torno do chamado doping tecnológico e da desigualdade, é certo que a tecnologia esportiva continuará avançando. Cabe a nós usá-la de forma que sua influência garanta que o esporte permaneça justo e acessível a todos.