Testes clínicos mais rápidos e baratos com tecnologia in silico

A evolução tecnológica, em especial os avanços do machine learning, trazem sempre ameaça da eliminação de postos de trabalho e substituição das pessoas em diversas tarefas. Mas assim como o avanço possibilita criar funções ainda mais complexas e especializadas, que não podem ser feitas por máquinas, a substituição virtual pode ser muito bem-vinda em alguns casos. Um deles é nos testes de novos medicamentos ou vacinas. A medicina in silico, que reproduz órgãos do corpo humano e simula seu funcionamento em computador, deve provocar em breve uma ruptura na pesquisa de novas drogas e tratamentos de saúde. Com ela, os primeiros estágios dos testes clínicos da vacina contra a covid-19, por exemplo, poderiam ter sido feitos em modelos virtuais, num processo mais rápido e mais econômico.

Além de tornar mais rápido o processo de testagem e reduzir os riscos dos ensaios clínicos, a medicina in silico também pode ser usada para substituir intervenções de alto risco necessárias para diagnosticar ou determinar o tratamento de algumas doenças. É o caso do diagnóstico de doença arterial coronariana com base em imagens do coração do paciente. O sistema HeartFlow produz um modelo em 3D das artérias coronárias, codificado por cores, indicando os efeitos dos eventuais bloqueios no fluxo sanguíneo identificando problemas e o grau de gravidade, evitando a necessidade de exames invasivos como a angiografia.

Tratamento mais personalizados com menor custo

O poder preditivo e a confiabilidade dessa nova tecnologia ainda estão sob análise e, entre outros avanços, depende da criação de um banco de dados médicos a partir de uma vasta base de pacientes que inclua todas as dimensões de diversidade e do refinamento de modelos matemáticos que contemplem os muitos processos de interação no organismo. O uso de modelos virtuais também possibilitará um salto na personalização de terapias para tratamento de diversas enfermidades.

A comunidade científica possui várias iniciativas para o desenvolvimento da medicina in silico, como a organização internacional de pesquisa, sem fins lucrativos, Virtual Physiological Human Institute, que reúne especialistas de todo o mundo, o Living Heart Project, da Dassault Systèmes, e o Healthcare NExT, da Microsoft.

Nos últimos anos, a U.S. Food and Drug Administration, a agência norte-americana que regula medicamentos e alimentos, e órgãos reguladores de países europeus aprovaram alguns usos comerciais de diagnósticos baseados em computador. “Mesmo com a alta complexidade do setor de saúde, a medicina in silico traz a perspectiva de uma relação custo-benefício para pacientes, médicos e entidades de saúde no tratamento das mais diversas doenças”, afirma Arie Halpern, especialista em tecnologias disruptivas.